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Habitantes em outros Planetas?

Pergunta: “As reportagens sobre discos voadores dão por vezes a entender que há habitantes em outros planetas. Não se seguiria daí a necessidade de reformarmos nossas concepções religiosas? O espiritismo vê em tudo isso um argumento em favor de suas teses!”

A maneira como se tem tratado o assunto dos discos voadores é por vezes um tanto pueril. Abordemo-lo com a devida sobriedade.

1. Antes do mais, importa frisar que a hipótese de existirem habitantes em outros planetas não sofre objeção por parte da fé católica. A Sagrada Escritura e a Tradição nada ensinam a seu respeito, pois o conhecimento do assunto não interessa imediatamente à salvação eterna dos homens e o Senhor houve por bem revelar-nos apenas verdades atinentes à nossa santificação. A questão, portanto, fica fora do âmbito da Palavra de Deus a nós transmitida; deverá ser estudada à luz das ciências e das observações empíricas; o católico reconhecerá a resposta que o cientista lhe comunicar, desde que não seja formulada de modo contraditório à verdade revelada.

Foi no século passado que começou, entre os teólogos, a ser focalizada com certa atenção a hipótese de haver outros planetas habitados. Alguns então tentaram torná-la plausível, fazendo valer, entre outros argumentos, o seguinte: existe enorme quantidade de matéria espalhada pelos espaços cósmicos; a matéria, porém, só pode preencher a sua finalidade (dar glória a Deus) no conjunto das criaturas, caso haja seres Inteligentes que a conheçam e, mediante ela, se elevem até o Altíssimo; seria, por conseguinte, harmonioso que o Criador tivesse colocado nos astros seres semelhantes aos homens, destinados a se servir do respectivo mundo material para prestar louvor ao Todo-Poderoso. O argumento não deixa de ter sua conveniência. Destarte se vê que a empolgante hipótese, longe de contradizer à fé, pode sem dificuldade ser incorporada a uma visão profundamente teológica do universo. Vê-se igualmente que a habitação de outros planetas e a possibilidade de comunicações inter-siderais são teses de todo independentes da ideologia espírita e da teoria da reencarnação, por muito que os espíritas explorem o noticiário dos jornais em favor de suas crenças. As pretensas mensagens do Astral, as “comunicações de Ramatis” captadas por via mediúnica não são senão produtos da subconsciência e da fantasia, hoje mais do que nunca excitadas pelos “boatos” e as conjeturas: posto em estado de transe, o “médium” pode dar expressão a noções latentes em seu íntimo, combinando-as num enredo mais ou menos fantástico, correspondente a sugestões que receba por parte de agentes externos.

Para fundamentar a tese da existência de marcianos e de seus apregoados discos voadores, a S. Escritura não oferece texto algum, apesar do que às vezes se lhe quer atribuir.

2. Admitida a hipotética existência de habitantes em outros planetas, surge a questão: como se configurariam esses indivíduos ?

a) Do ponto de vista físico, é de crer que constem de espírito e matéria, alma e corpo ; provavelmente, porém, são dotados de constituição fisiológica diferente da nossa, a fim de poder viver em condições de atmosfera, pressão e clima bem diversas das nossas.

A rigor, também nada há contra a hipótese (abordada em reportagem) de que tenham emigrado da Terra para o planeta onde atualmente residem. Neste caso, poderiam ser descendentes de Adão (teriam então o pecado original), como poderiam ser filhos de uma hipotética humanidade que haveria vivido sobre a Terra antes do aparecimento de Adão (não se poderia dizer com precisão quando é que Adão existiu). Sobre a hipótese dos «pré-adamistas», veja E. Bettencourt, Ciência e Fé na história dos primórdios, cap. VI.

b) Do ponto de vista religioso, os marcianos estariam sujeitos à mesma lei natural que nós, isto é, teriam uma consciência moral igual à nossa. Portanto, também entre eles estaria em vigor o preceito básico de toda a moralidade; “Faze o bem, evita o mal”, assim como as conseqüências que deste decorrem : “Não matar, não roubar, não adulterar, etc.” A razão disto é que a lei natural é um reflexo da Lei eterna de Deus ; ela exprime a infinita santidade de Deus, a qual é imutável : para o Senhor, as categorias do bem e do mal não são sujeitas a reforma nem a tempos e lugares, pois não dependem apenas de um ato da Vontade divina, mas do imutável Ser de Deus.

Em se tratando de leis positivas, os habitantes de outros planetas poderão estar sujeitos a determinações diferentes das que o Altíssimo promulgou para nós (tais são o dever de guardar um dia entre sete, o de recorrer aos sacramentos, etc.).

É provável que, uma vez criados os marcianos, o Senhor tenha havido por bem submetê-los a uma provação, dando-lhes assim o ensejo de afirmar livre e conscientemente a sua adesão ao Bem Supremo. É o que se afirma, visto o modo como o Criador procedeu com os homens e com os anjos.

Sujeitas à prova, terão aquelas criaturas superado a tentação ou, antes, sucumbido ao pecado?

Esta pergunta já nos coloca muito longe no castelo das hipóteses… Digamos, porém, que, se resistiram ao mal, os seres extra-telurianos foram provavelmente confirmados no bem, à semelhança do que se deu com os anjos bons. Se pecaram, podem ter sido agraciados por urna Redenção. Neste caso, é possível que lhes estejam sendo aplicados os méritos de Cristo adquiridos na Terra há vinte séculos atrás, méritos mais do que suficientes para extinguir os pecados de muitos mundos, como também se pode pensar que o Filho de Deus se tenha encarnado outra vez em outro planeta.

Divagar por tantas conjeturas se torna, em última análise, ocioso ; vão é ao homem procurar respostas para questões que pertencem estritamente aos arcanos da Sabedoria de Deus. Certa atmosfera de pavor e perplexidade chega a se criar em virtude da previsão de guerras interplanetárias… Com isto, não poucos dos nossos contemporâneos perdem de vista a tarefa da hora presente ; para o cristão, uma coisa é segura: quer existam, quer não existam marcianos, ele tem que progredir diariamente na união com Deus, despojando-se todos os dias um pouco mais do velho homem, e revestindo-se da nova criatura (cf. 2 Cor 4,16 ; Ef 4,24); fazendo isto, o cristão ganha a sua vida na Terra e chegará a ver face a face a infinita Sabedoria de Deus, com seus misteriosos desígnios. Eis, porém, que as múltiplas hipóteses arquitetadas em torno dos discos voadores impedem a muitos de rezar e viver na presença de Deus e, por conseguinte, de considerar o mundo como ele deve ser considerado.

Meu saudoso Prof. Dr.Dom Estêvão Bettencourt (OSB) - Nelson Silva

 

 
 
 

A Igreja aceita comunicação com os mortos?

Em síntese: Mais uma vez os espíritas propagam a falsa noticia de que a Igreja Católica já’ reconhece e aceita a comunicação com os mor­tos. 0 fundamento de tal notícia é inconsistente e confuso. Não há pers­pectiva de que tal tenha acontecido ou venha a acontecer, já que se trata de algo proibido pelas Escrituras e amplamente explicado pela parapsicologia; os fenômenos mediúnicos nada tem de transcendental, mas são expressões do psiquismo do médium respectivo.

* * *

 

Por e-mail a Redação de PR recebeu a seguinte mensagem:

“Mais uma da nossa “amada” Igreja Católica…
O  Vaticano admite Consulta aos Mortos

 

Matéria transcrita da revista “0 Espírita”, de Brasília /DF, que, por sua vez, o transcreveu do Jornal “0 Popular” de Goiânia:

 

Há anos radicada na Europa, psicóloga goiana divulga a aprovação pela Igreja da comunicação com os mortos através de médiuns.

 

Oficialmente a Igreja Católica nunca admitiu o contato com os mor­tos, como prega a doutrina espírita. Nem mesmo a atividade de médiuns e paranormais até há bem pouco tempo, era levada em consideração pelos religiosos. Essa opinião mudou. Através do jornal “L’Osservatore Romano”, órgão oficial da Igreja com sede em Roma, em edição de no­vembro de 1996, o padre Gino Concetti concedeu uma entrevista, depois reproduzida em outros periódicos, como os italianos “Gente” e “La Stampa” e o mexicano “El Universal”, revelando os novos conceitos católicos em relação as mensagens ditadas pelos espíritos depois da morte carnal. Padre Gino Concetti, irmão da Ordem dos Franciscanos Menores, consi­derado um dos mais competentes teólogos do Vaticano, admite ser pos­sível dialogar com os desencarnados. Segundo ele, o catecismo moder­no ensina que Deus permite aqueles que vivem na dimensão ultra terrestre enviar mensagens para nos guiar em determinados momentos da vida. Após as novas descobertas no domínio da psicologia sobre o paranormal, a Igreja decidiu não mais proibir as experiências do diálogo com os trespassados, desde que elas sejam feitas com finalidades religiosas e científicas e com muita seriedade’.

 

Alegria

 

A medida ditada pela nova cartilha da Igreja Católica deixou eufórica a espirita Terezinha Rey psicóloga e ex-professora goiana, que reside há mais de 40 anos na Suíça. Ela é tradutora e divulgadora do texto do padre Gino Concetti. De férias em Goiânia, faz a divulgação desse mate­rial. Terezinha diz que as novas opiniões dos católicos a respeito da dou­trina pregada por Allan Kardec  são uma questão da evolução natural das coisas. “Tenho um grande respeito pela Igreja Católica e creio ser oportu­na esta revisão de suas opiniões sobre o espiritismo”, afirma ela, que preside um centro espírita em Genebra, freqüentado por centenas de pessoas. Terezinha considera importantes as pregações do padre italia­no porque tiram a culpa dos católicos por procurar os espíritas em busca de contatos com seus entes queridos. “Conheço padres na Europa que são médiuns”, revela a professora, citando como exemplo o padre Biondi, capelão dos jornalistas de Paris. Fundadora do Instituto Pestalozzi, Terezinha Rey foi para a Suíça em 1957 para fazer um doutorado em psicologia. Lá conheceu o renomado professor André Rey um dos cria­dores da psicologia clínica, e acabou ficando em Genebra, onde também foi aluna da professa Hélène Antipoff educadora de grande prestígio no mundo inteiro. Hoje, paralelamente as atividades que desenvolve no centro espirita, faz palestras e organiza os arquivos científicos do marido”.

 

QUE DIZER?

 

1. Inconsistência da notícia

 

Não é esta a primeira vez que o espiritismo procura atrair para si o abono da Igreja Católica. Já em PR 434/1998, pp 324-327 foi publicada uma refutação da notícia em foco, transmitida (tal notícia) aproximada­mente nos termos do texto atrás transcrito.

Voltamos ao assunto propondo quatro reflexões:

1) Toda decisão doutrinária da Santa Sé e publicada em documen­to assinado pelo Santo Padre ou por seus colaboradores; a coleção “Acta Apostolicae Sedis” é o órgão através do qual são divulgados todos os atos oficiais da Santa Sé. Um teólogo isolado, dando entrevista a um jornal vagamente citado, não pode ser tido como representante do pen­samento da Igreja.

2) 0 jornal LOSSERVATORE ROMANO1ao qual G. Concetti terá concedido a sua entrevista, é citado de maneira imprecisa, sem data de edição – O que foge às normas de uma noticia cientifica.

3) O novo Catecismo da Igreja Católica também é vagamente aduzido, sem indicação de parágrafos alusivos a mediunidade. Aliás, estes não se acham no Catecismo; quem o percorre, só encontra aí  a clássica doutrina da Comunhão dos Santos, sem referência a “diálogo com os falecidos”. Vejam-se os parágrafos seguintes:

§ 958 “A comunhão com os falecidos. Reconhecendo cabalmente esta comunhão de todo o corpo místico de Jesus Cristo, a Igreja terres­tre, desde os tempos primeiros da religião cristã, venerou com grande piedade a memória dos defuntos (…) e já que é um pensamento santo e salutar rezar pelos defuntos para que sejam perdoados de seus pecados” (2Mc 12, 46), também ofereceu sufrágios em favor deles. A nossa oração por eles pode não somente ajudá-los, mas também tornar eficaz a sua intercessão por nós.

 

§ 959 Na única família de Deus. Todos os que somos filhos de Deus e constituímos uma única família em Cristo, enquanto nos comuni­camos uns com Os outros em mútua caridade e num mesmo louvor a Santíssima Trindade, realizamos a vocação própria da Igreja.

 

§ 2683  As testemunhas que nos precederem no Reino, especial­mente as que a Igreja reconhece como santos, participam da tradição viva da oração, pelo exemplo modelar de sua vida, pela transmissão de seus escritos e pela sua oração hoje. Contemplam a Deus, louvam-no e não deixam de velar por aqueles que deixaram na terra. Entrando na alegria do Mestre, eles foram postos a frente de muito. A sua intercessão é o mais alto serviço que prestam ao plano de Deus. Podemos e deve­mos pedir-lhes que intercedam por nós e pelo mundo inteiro”.

 

A Igreja aceita a invocação dos santos (orações humildes dirigidas aos justos do céu para que intercedam por nós), mas não aceita a evocação dos mortos (pratica ritual que julga obter respostas e mensagens dos mortos).

4) 0 estudo da paranormalidade é algo de científico; consiste em observar o comportamento psíquico paranormal (= ao lado do normal). Precisamente a consciência de que existe um comportamento paranormal dissipa a concepção de que os fenômenos estranhos produzidos no es­piritismo se devem ao além, pois se verifica que são suficientemente ex­plicados pelo psiquismo do indivíduo paranormal.

A Igreja aceita tranqüilamente o estudo da paranormalidade que ela distingue da comunicação com os mortos. O sensitivo é o indivíduo dotado de paranormalidade mais ampla; não é necessariamente um médium espírita; só será médium se julgar que os seus fenômenos psí­quicos paranormais são produzidos por espíritos do além.

Estas observações permitem concluir que a notícia em foco é fal­sa.

2.  O   testemunho bíblico

 

Para o católico, é importante o testemunho da Sagrada Escritura. 0 mesmo Deus que, segundo seus inscrutáveis desígnios, permite as vezes a aparição de santos ou defuntos, proibiu terminantemente a evo­cação dos mortos:

“Se alguém se dirigir aos que evocam os espíritos e aos advinhos, para se entregar as suas práticas, voltarei minha face contra esse ho­mem e o afastarei do meu povo”. (Lv 20, 6).

“Todo homem ou toda mulher que evocar os espíritos ou se der a adivinhação, será punido de morte; lapidá-lo-ão; seu sangue recairá so­bre ele”. (Lv 20, 27). Verainda Lv 19, 31,’ Dt 18,11.

 

Não obstante estas proibições, sabe-se que o rei Saul, atribulado numa campanha bélica, foi ter com a pitonisa (ou adivinha) de Endor, pedindo-lhe que o pusesse em comunicação com a alma de Samuel, seu guia de outrora (cf. iSm 28, 7-14). O cronista bíblico acentua bem que esse feito foi ilícito: “Saul… se tornara culpado diante do Senhor… porque interrogara e consultara os que evocam os mortos” (1Cr 10, 13). Não obstante, Deus se dignou permitir que o espírito de Samuel evocado respondesse: permitiu-o, não por causa dos ritos da pitonisa, que eram totalmente ineptos para tanto, mas tornando como mera oca­sião a visita do rei a adivinha o motivo por que então o Senhor atendeu a Saul foi, como se depreende das palavras de Samuel, o desejo de admoestar o rei a penitência ao menos no fim de sua vida (o rei Saul havia de morrer no dia seguinte); a exortação dirigida a Saul em circuns­tâncias tão extraordinárias seria particularmente eficaz. Disto, porém, não se segue que Deus se dirija aos homens por via tão estranha todas as vezes que estes o desejem.

A razão por que e proibida a necromancia, não é o falso pressu­posto de que esta incomoda os mortos; deve-se simplesmente ao fato de que e uma crendice ou superstição.

3.   E as visões dos Santos?

 

Bem diferentes dos fenômenos espíritas são as visões que os santos tem.

Estas são totalmente gratuitas, não resultando de ritos previamen­te executados para as provocar. Não há dúvida, tais visões podem ser a resposta do Senhor a preces de almas justas desejosas de obter um sinal sobrenatural. Contudo, assim como o Senhor Deus pode atender a essas orações (caso isso ocorra para o bem dos fiéis), pode  também não as deferir; nunca será lícito ao cristão crer que dispõe de meio seguro para se comunicar com as almas dos defuntos; todo o nosso intercâmbio com eles se realiza mediante insondável e soberana permissão de Deus. Mesmo quando uma pessoa devota julga estar sendo agraciada por vi­sões, os mestres da vida espiritual aconselham-lhe toda a cautela na interpretação de tais fenômenos, pois Satanás não raro se dissimula em “anjo de luz” (cf. 2Cor 11, 14). As autênticas aparições de santos ou almas neste mundo (mesmo não provocadas) não são tão freqüentes quanto propalam as noticias!

Como se vê, este ponto de vista não se identifica com a posição dos espiritas, que afirmam poder entrar em contato com tal alma, por ocasião de tais ritos… Procedem como se ainda tivessem jurisdição ou poder sobre aqueles que não são mais da nossa convivência e cuja sorte só Deus conhece.

1. A notícia anterior afirmava que Gino Concetti falara ao jornal ANSA.

O que é a Igreja Brasileira, ou Igreja Católica Brasileira?

A Igreja Católica Apostólica Brasileira ou “Igrejas Católicas Apostólicas Brasileiras” (ICAB), têm lançado confusão no público, pois pretendem guardar a aparência de Igreja Católica e facilitam a praxe religiosa dos seus seguidores. – Daí a conveniência de uma análise precisa do fenômeno.

1. Origem da ICAB

A “Igreja Católica Apostólica Brasileira” (ICAB) tem como fundador D. Carlos Duarte Costa. Este nasceu aos 21 de julho de 1888 no Rio de Janeiro e recebeu a ordenação sacerdotal a 1º de abril de 1911. Aos 4 de julho de 1924 foi nomeado bispo de Botucatu (SP). Pouco feliz foi o governo do novo prelado, que se viu envolvido em questões de mística desorientada (devoções pouco condizentes com a reta fé); também enfrentou problemas de administração financeira e de embates políticos. Em conseqüência foi afastado de sua diocese e nomeado bispo titular de Maura (na Mauritânia, África Ocidental); fixou então residência no Rio de Janeiro. Em breve, porém, D. Carlos viu-se a braços com novas lutas: em 1942 o Brasil entrou em guerra contra o nazi-fascismo; nessa ocasião o bispo apelou publicamente para o Presidente da República a fim de que interviesse na Igreja e expulsasse bispos e sacerdotes “fascistas, nazistas e falangistas”; acusou a Ação Católica de espionagem em favor do totalitarismo da direita; prefaciou elogiosamente o livro “O Poder Soviético” de Hewlet Johnson e atacou por escrito as Forças Armadas do Brasil. Em conseqüência, foi preso como comunista e enviado a uma cidade de Minas Gerais, onde permaneceu na qualidade de hóspede.

Diante dos rumores que se propagavam em torno da pessoa de D. Carlos, as autoridades eclesiásticas procuraram apaziguá-lo. Como isto não desse resultado, D. Carlos em 1944 foi suspenso de ordens, isto é, perdeu a autorização para exercer as funções do sagrado ministério. Esta medida de nada serviu; por isto D. Carlos foi excomungado aos 6 de julho de 1945; neste mesmo dia resolveu fundar a sua Igreja, dita “Igreja Católica Apostólica Brasileira”. Em vista desta atitude, o Santo Ofício declarou D. Carlos excomungado vitandus (= a ser evitado) aos 3 de julho de 1946.

Um dos primeiros atos públicos da ICAB foi a fundação do “Partido Socialista Cristão”, sob a orientação de D. Carlos. Este chegou a apresentar um candidato à presidência da República, o qual, porém, se desentendeu em breve, ficando fracassado o novo Partido.

D. Carlos promoveu direta ou indiretamente a ordenação de numerosos “bispos” e “presbíteros”, cuja formação doutrinária e cultural era precária. O infeliz prelado veio a falecer aos 26 de março de 1961; terminou a vida de maneira desvairada, obcecado por paixões, que se exprimiam em injúrias através do seu jornal “LUTA”. Todavia um Concílio Nacional da ICAB, aos 6 de julho de 1970, chegou a atribuir-lhe o título de “Santo”: “São Carlos Duarte”!

2. Doutrina e atuação da ICAB

Em matéria de doutrina, a ICAB procura reproduzir a da Igreja Católica, excluindo (como se compreende) o primado de Pedro… A sua mensagem teológica é muito diluída, visão que os seus orientadores pouco estudam. Vários destes são homens que tentaram chegar ao sacerdócio na Igreja Católica, mas, por um motivo ou outro, não o conseguiram; então passaram-se para a ICAB, onde o estudo e o acesso às ordens sagradas lhes foram extremamente facilitados. Infelizmente nota-se nos membros da hierarquia e nos fiéis da ICAB certo oportunismo, ou seja, a procura de atender a interesses pessoais: ordenação “sacerdotal” ou “episcopal”, lucros financeiros mediante celebração do culto, “casamento” facilitado em favor de pessoas já casadas, “batizados” sem preparação dos pais e padrinhos… Dir-se-ia que a ICAB procura adeptos a todo e qualquer preço; lê-se, por exemplo, na Lista Telefônica de assinantes classificados do Rio de Janeiro:

“ICAB, Igreja Católica Apostólica Brasileira, Paróquia São Jorge: casamento com ou sem efeito civil de pessoas solteiras, desquitadas e divorciadas. Crismas. Consagrações. Também em residências ou Clubes Realengo, Piraquara”.

Dado que a ICAB se adapta às diversas oportunidades de crescer, há atualmente muitos ramos da mesma independentes uns dos outros, o que sugere a denominação “Igrejas Católicas Apostólicas Brasileiras” em vez de “Igreja Brasileira”.

O que dá certo êxito a essa corrente religiosa, são os dois seguintes fatores:

1) A reprodução dos ritos e a conservação dos símbolos (inclusive da linguagem) da Igreja Católica. Muitas pessoas não conseguem distinguir entre a Igreja Católica e a Igreja Brasileira. Parece haver a intenção de guardar em tudo as aparências da Igreja Católica entre os responsáveis das Igrejas Brasileiras.

2) O procedimento facilitário e oportunista dos mentores da ICAB. Esta não apresenta normas definidas de Direito Eclesiástico, de modo que os seus ministros são capazes de “legitimar” religiosamente qualquer situação ilegal daqueles que os procuram. Este comportamento facilitário é, naturalmente, fonte de dinheiro, pois a ICAB sabe prevalecer-se da generosidade dos fiéis. A exploração se torna ainda mais fácil em virtude da ignorãncia religiosa de muitos cidadãos brasileiros.

A falta de estrutura doutrinária e disciplinar das Igrejas Brasileiras lhes tira a coesão desejável e faz que não tenham quase significado no cenário público do Brasil; apesar disto, conseguem penetrar dentro da população desprevenida da nossa Pátria, favorecendo o ecleticismo e solapando a vitalidade religiosa de muitos católicos.

A propósito pergunta-se:

3. Qual a validade dos ritos da ICAB?

Respondemos em três etapas:

3.1. A eficácia dos Sacramentos

a) Um sacramento é um rito mediante o qual Cristo comunica as graças da Redenção ex opere operato, ou seja, desde que o ministro respectivo aplique a matéria (água, pão, vinho, óleo) e a forma devida (as palavras que indicam o efeito da matéria).

b) Os sacramentos não são eficazes ou não conferem a graça em virtude da santidade do homem (sacerdote, bispo) que os administra mas sim por ação do próprio Cristo, que se serve do homem como instrumento de sua obra redentora. Todavia, para a validade do sacramento, requer-se que:

- O ministro tenha sido validamente ordenado padre ou bispo;

- Tenha, ao administrar o sacramento, a intenção de fazer o que Cristo queria que fosse feito, ou a intenção de se identificar com as intenções de Cristo, Sumo Sacerdote.

3.2. Que diz a ICAB?

Os adeptos da ICAB afirmam que

- Seus ministros foram validamente ordenados padres e bispos, pois receberam a sucessão apostólica das mãos de D. Carlos Duarte Costa, que foi verdadeiro bispo da Igreja Católica, sagrado por D. Sebastião Leme. Embora Dom Carlos se tenha separado da Igreja Católica, conservou o caráter episcopal perenemente impresso em sua alma

- D. Carlos e os bispos que ele ordenou sempre fizeram questão de transmitir as ordens sacras segundo o ritual exato adotado pela Igreja Católica (usando mesmo o latim em algumas ocasiões);

- As missas, os batizados e outros ritos ocorrentes nas cerimônias de culto da ICAB obedecem estritamente à essência do Ritual sempre vigente na Igreja Católica.

Por conseguinte, concluem os ministros da ICAB, a Igreja Brasileira possui autênticos bispos e presbíteros, e ministra validamente os sacramentos.

3.3. E que diz a Igreja Católica?

a) Embora os ministros da Igreja Brasileira apliquem exatamente a matéria e a forma de cada sacramento, falta-lhes algo de essencial para que seus sacramentos sejam válidos, isto é, a intenção de fazer o que Cristo quis fosse feito. Na verdade, os ministros da ICAB, mediante os seus ritos, intencionam criar e desenvolver uma “Igreja” separada da única Igreja fundada por Cristo; tal “Igreja” nova já não professa as verdades do Credo Apostólico, mas se entrega ao ecleticismo religioso: protestantes, espíritas, maçons e comunistas podem ser igualmente membros da ICAB. Sim; a revista “A Patena”, revista da “diocese da Baixada Fluminense” da ICAB, em seu nº 3 de 1971, 4ª capa, diz que a Igreja Brasileira “religiosamente é católica, porque aceita em seu grêmio cristãos de qualquer mentalidade, sem repelir os que sejam ou se digam protestantes, espíritas, maçons, católicos-romanos etc.”. Isto significa que a Igreja Brasileira vem a ser uma sociedade filantrópica, humanitária, mas já não tem a mensagem religiosa definida que o Cristo confiou ao mundo e que o Símbolo de fé apostólico professa.

Donde se vê que a ação dos ministros da ICAB carece daquela intenção que é essencial para a validade dos sacramentos: a intenção de fazer o que Cristo faz mediante os sacramentos.

b) Já que a ICAB se ramificou, dando origem a múltiplas “Igrejas”, Ordens e Irmandades independentes, já não se pode saber até que ponto nas denominações “católico-brasileiras” se conserva a fidelidade aos ritos sacramentais; com o tempo as arbitrariedades e os desvios facilmente se introduzem nas pequenas comunidades. Em conseqüência, a Igreja Católica não reconhece as ordenações conferidas pela ICAB, muito menos reconhece a autenticidade das Missas e dos sacramentos celebrados pela ICAB.

4. Observações Finais

A Igreja fundada por Cristo (cf. Mt 16,16-19) é Católica (aberta a todos os homens), Apostólica (baseada sobre a ação missionária dos doze Apóstolos) e Romana, isto é, governada visivelmente por Pedro e seus sucessores, que têm sede em Roma (como poderiam ter em Jerusalém, Antioquia, Alexandria… se a Providência Divina tivesse encaminhado Pedro e os acontecimentos iniciais da história da Igreja em rumo diverso do que realmente ocorreu).

O título de “Romana” portanto não significa que a Igreja de Cristo esteja presa aos interesses políticos da cidade de Roma ou da nação italiana; nem implica subordinação dos fiéis católicos do Brasil a uma potência estrangeira, mas apenas indica que essa Santa Igreja tem seu chefe visível, instituido por Cristo, na cidade de Roma.

Os fatos atrás apontados evidenciam a urgência de sólida catequese para o povo de Deus no Brasil.

D. Estevão Bettencourt

 
 
 

Se Jesus teve esposa, como se justifica o celibato dos padres?

Recentemente veio à tona uma notícia surpreendente: uma estudiosa da língua copta, Karen King, professora na Harvard Divinity School divulgou num Congresso na Universidade La Sapienza de Roma um pequeno fragmento de papiro (3,8 cm. X 7,6 cm.) proveniente do século IV do Egito, no qual se lê: «E Jesus disse-lhes: a minha esposa». De modo inacreditável, a partir dessas palavras, alguns concluíram que Jesus Cristo foi casado (talvez com Maria Madalena), algo que contraria os Evangelhos (escritos na Palestina aproximadamente 20 anos depois da morte dele) e a razão de muita gente. De fato, como saber com certeza se aquele texto de origem desconhecida se refere mesmo a Jesus Cristo e não a um dos milhares de “Jesus” que existiram entre o século I e IV? Além disso, a própria Bíblia usa a linguagem matrimonial para falar da união de Cristo e da Igreja (Ef. 5). Não seria possível que aquela frase (caso fosse realmente de Jesus Cristo) estivesse se referindo à Igreja, a Esposa do Cordeiro (Ap. 21,9)?

Como consequência dessa extraordinária “descoberta”, os meios de comunicação e muita gente séria (inclusive de dentro da Igreja) começam novamente a debater sobre a obrigatoriedade do celibato sacerdotal. E novamente começamos a escutar as afirmações de sempre: «o Novo Testamento fala certamente do celibato e do casamento, mas nunca como um mandamento, somente como conselho; de modo que seria lógico que os padres pudessem também ter o direito de escolher entre o celibato ou não»; «Se o celibato fosse opcional, certamente haveria mais vocações sacerdotais na Igreja, e essa se apresentaria como mais moderna e adequada aos tempos atuais»; «o celibato não é bíblico e nem é necessário; na verdade é uma invenção posterior da Igreja, surgida muitos anos depois de Cristo; se o mesmo São Pedro, o primeiro dos Apóstolos, foi casado, por que os padres não podem se casar? Parece que não há nada que impeça a mudança dessa norma meramente eclesiástica»; «No Oriente, os sacerdotes são casados, tanto os ortodoxos quanto os católicos de rito oriental. Portanto o celibato não é necessário para o sacerdócio»; «o celibato não é um dogma, mas apenas uma questão disciplinar e por isso pode ser mudada pela autoridade da Igreja».

Essas afirmações são tão repetidas e, ao mesmo tempo, rejeitadas pela Igreja que podemos desconfiar que essas não são mais do que grandes superficialidades. Mas como responder a essas questões? Quais seriam as razões do celibato? Possui origem bíblica? Poderia essa disciplina algum dia mudar? Vamos afrontar aqui essas questões.

1.  O ensinamento bíblico:

 A primeira coisa a ser dita é que não há dúvidas que Jesus Cristo falou explicitamente do celibato em sua pregação e Ele mesmo viveu desse modo. Os Evangelhos dizem que ele foi chamado de «comilão e beberrão», de «amigo dos publicanos e dos pecadores», mas jamais foi chamado de luxurioso, de mulherengo. Numa ocasião os seus discípulos se surpreendem ao vê-lo conversando a sós, perto de um poço, com uma mulher Samaritana. Isso demonstra que seus discípulos jamais tiveram a menor suspeita da castidade absoluta de Jesus. De fato, não há nenhum texto bíblico que sugira que Jesus não fosse celibatário e nenhum texto “apócrifo”, nenhum escrito extra bíblico dos primeiros séculos, que o afirme ou sugira. A descoberta recente ganhou a atenção mediática exatamente porque é o primeiro texto relativamente antigo (sec. IV d. C.) que parece sugerir essa possibilidade.

Jesus falou claramente sobre o celibato, justamente depois de fazer um belíssimo discurso sobre a santidade e a indissolubilidade do Matrimônio (Mt 19): «porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda».

Naquela mesma ocasião, um jovem rico se apresentou a Jesus querendo-lhe seguir. O Senhor então lhe apresentou as exigências necessárias para fazê-lo e aquele jovem, que tinha muitos bens e que não queria deixar nada, o abandonou triste. Imediatamente depois Pedro, comparando sua vida com a daquele jovem, perguntou a Jesus: «Eis que nós deixamos tudo e te seguimos». E ele então respondeu: «… todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna».

Jesus mostra aqui aos seus Apóstolos o que significa deixar «tudo» para segui-lo: inclui o deixar mulher e filhos. Então aqui surge uma pergunta: então algum dos Apóstolos era casado? O texto parece indicar que sim. De fato, São Pedro pelo menos era casado, pois os Evangelhos contam que Jesus curou a sua sogra (Mt. 8, 14-15). Entretanto, é interessante notar que aquela senhora, uma vez curada da sua grave febre, imediatamente se levanta e começa a servir ao Senhor e aos doze Apóstolos. O texto bíblico não fala nada sobre a esposa de Pedro (nem aqui, nem em lugar algum do N.T.). Não foi essa que se colocou ao serviço de Jesus, coisa que seria mais lógico do que uma mulher anciã e convalescente. Não há dúvidas, pois, de que a Bíblia sugere que Pedro fosse viúvo naquela ocasião.

De qualquer modo, o celibato na vida da Igreja até o Concílio de Trento (séc. XVI) foi entendido sempre em dois significados, presente no Decreto de Graciano, uma síntese extraordinária da legislação canônica feita no ano 1.140: a continentia clericorum se refere ao dever dos ministros ordenados de não se casar ou de não usar dos direitos matrimoniais de um casamento previamente contraído (in non contrahendo matrimonio et in non utendo contracto). Isso quer dizer que, efetivamente, no primeiro milênio da Igreja existiam padres casados, como as mesmas Sagradas Escrituras nos falam (cfr. 1 Tim. e Tit). Mas a partir do momento da Ordenação, do momento que o «eu» do sacerdote se une ao «eu» de Cristo [i], os padres deveriam, a exemplo de Jesus e dos Apóstolos, deixar tudo para segui-lo, o que implicava a renúncia à vida matrimonial. Para seguir ao Senhor na vida sacerdotal, é necessário deixar tudo: «casa, pais, irmãos, mulher, filhos, pelo reino de Deus».

O motivo pelo qual, nos primeiros séculos, houve padres casados foi porque o matrimônio não era como é hoje, um consenso livre entre duas pessoas, mas se fundava num contrato jurídico entre as famílias e o Cristianismo surgiu dentro do Império Romano. De modo que no Cristianismo primitivo era comum que houvesse pessoas casadas, devido a uma obrigação jurídica, e celibatárias, «por causa de Cristo e do Reino dos Céus». E isso não era uma obrigação exclusiva para os padres, mas sim uma escolha livre dos cristãos, de homens e mulheres. De modo que na Igreja antiga os padres provinham de três grupos diversos: dos celibatários que não eram legalmente casados, dos monges, e dos homens casados legalmente, os quais, uma vez ordenados diáconos, passavam a viver a continência absoluta.

E há outras figuras celibatárias na Bíblia? Certamente sim. No Antigo Testamento os sacerdotes deviam viver a continência no período em que eles prestavam serviço litúrgico no Templo. O sacerdócio em Israel era ligado à tribo de Levi, que devia permanecer ao longo da História. Por isso, cada sacerdote prestava o seu serviço num determinado período de tempo. Em Israel o sacerdócio era hereditário e não o fruto de uma vocação e escolha pessoal. De modo que para eles havia a obrigação do celibato nos períodos em que serviam ao templo e no resto do tempo viviam seu matrimônio normalmente. Além disso, no A.T. há a figura de Jeremias, sacerdote que pretendia se casar com Judite, mas Deus lhe proibiu explicitamente como um sinal profético ao povo de Israel (Jer. 16).

No Novo Testamento temos a figura de João Batista, o precursor do Senhor que era, sem dúvidas, celibatário. Além dele, José e Maria eram casados e não tiveram jamais uma relação sexual, pois é uma verdade de fé que Maria foi virgem antes, durante e depois do parto e José foi o protetor da virgindade de Maria. Mas a origem mesma do celibato na vida eclesiástica é a vida de Jesus Cristo, ao qual se associaram os seus Apóstolos.  Não há nenhum texto bíblico que mencione as esposas dos Apóstolos, nem algum sinal da existência dessas na tradição extra bíblica, nem escrita, nem monumental. Os textos «apócrifos» da Antiguidade não falam nunca das esposas de Jesus Cristo e dos seus Apóstolos e não há nenhuma tradição que diga onde estejam enterradas essas mulheres, por exemplo. Certamente, se Jesus e os Apóstolos tivessem sido casados, isso não teria sido pecado algum, pois o casamento foi elevado por Jesus Cristo ao nível de Sacramento, de sinal sagrado que simboliza a Aliança eterna e fiel entre Deus e a humanidade. Se não há nenhum sinal na História das esposas de Jesus e dos Apóstolos é porque essas jamais existiram.

São Paulo, que não pertencia ao grupo dos Doze Apóstolos, mas que foi chamado posteriormente por Jesus a ser um «Apóstolo de Cristo», fala também explicitamente do celibato, dizendo que não é um mandamento do Senhor, mas ele queria que muitos cristãos fossem como ele. O fato de que ele fosse celibatário, «Apóstolo» e um perfeito imitador de Cristo nos mostra que o celibato era condição necessária para se abraçar o sacerdócio de Cristo. De fato, o sacerdote diz todos os dias «Isso é o meu corpo entregue por vós». Quem pensa seriamente nessas palavras compreende sem dificuldade alguma a beleza e a exigência de se viver o celibato, entregando-se realmente ao próximo como Cristo [ii].

Há ainda dois textos bíblicos utilizados como argumento pelos que pretendem a abolição do celibato na Igreja. São 1 Tim 3, 1-5 e Tit. 1, 8-9, nos quais São Paulo enumera as qualidades do bispo.

1 Tim 3, 1-5: «Eis uma coisa certa: quem aspira ao episcopado, saiba que está desejando uma função sublime. Porque o bispo tem o dever de ser irrepreensível, casado uma só vez, sóbrio, prudente, regrado no seu proceder, hospitaleiro, capaz de ensinar. Não deve ser dado a bebidas, nem violento, mas condescendente, pacífico, desinteressado; deve saber governar bem a sua casa, educar os seus filhos na obediência e na castidade. Pois quem não sabe governar a sua própria casa, como terá cuidado da Igreja de Deus?»

 Tito 1, 8- «o bispo seja irrepreensível, como administrador que é posto por Deus. Não arrogante, nem colérico, nem intemperante, nem violento, nem cobiçoso. Ao contrário, seja hospitaleiro, amigo do bem, prudente, justo, piedoso, continente (encratés), firmemente apegado à doutrina da fé tal como foi ensinada, para poder exortar segundo a sã doutrina e rebater os que a contradizem».

No primeiro deles se diz que o bispo dever ser casado uma só vez (unius uxoris vir) e no segundo diz que o bispo de ver ser continente (encratés), palavra usada na Igreja antiga e medieval para se descrever o celibato sacerdotal. Como conciliar os dois textos? Certamente, assim como a Tradição da Igreja o fez: o bispo que fosse casado antes da sua Ordenação deveria se abster das relações sexuais com a sua esposa ao ser admitido às sagradas Ordens. E isso está de acordo com os Evangelhos, pois quem quer seguir de perto o Senhor deve deixar tudo, inclusive «mulher e filhos», por causa dele e do Reino dos Céus. Assim foram interpretados esses textos pelos cristãos desde o primeiro século, tanto no Oriente como no Ocidente. A documentação sobre isso é abundante.

2. O celibato na Tradição da Igreja

Antes de tudo é preciso dizer que quem pensa que o celibato é apenas uma lei disciplinar da Igreja, que poderia ser mudada a qualquer momento, assume, talvez acriticamente, uma visão positivista do Direito, como se as leis da Igreja fossem arbitrárias, provenientes apenas da vontade do legislador ou do consenso humano e fossem totalmente desvinculadas das verdades da fé (dogmas). Na verdade, a Igreja jamais teve uma visão positivista do Direito, de modo que a lei foi sempre entendida como «uma ordenação racional para o bem comum promulgada por quem dirige a comunidade» (Santo Tomás de Aquino, S.Th. I-II, 90,4). As leis da Igreja não podem jamais ser arbitrárias, mas são sempre racionais e tem como fonte a Revelação. Recentemente o importante filósofo do Direito, Hans Kelsen bem demonstrou que o Direito (ius) é diverso das leis (lex). O Direito é toda norma obrigatória, transmitida inicialmente como tradição oral e como costume e, posteriormente, essas normas são colocadas por escrito (lex). Essa descrição é correta, válida tanto para as primeiras leis do Direito Romano como para aquelas eclesiásticas, inclusive no que se refere ao celibato apostólico. Esse foi antes de tudo vivido por Jesus Cristo, pelos Apóstolos (seja na forma de continência perfeita, seja na abstinência das relações sexuais depois da Ordenação) e seus sucessores: bispos, presbíteros e diáconos.

A primeira lei escrita sobre o celibato provém do Concílio de Elvira (Córdoba – Espanha), no ano 300. Antes dessa época há poucos documentos jurídicos da Igreja, devido ao período das perseguições. No ano 300 a Igreja contava com uma relativa paz na Espanha, o que possibilitou a realização desse Concílio.

No Cânon 33, sob o título «sobre os bispos e ministros (do altar), que devem ser continentes com suas esposas», lemos: «Se está de acordo sobre a proibição total, válida para bispos, sacerdotes e diáconos, ou seja, para todos os clérigos dedicados ao serviço do altar, que devem se abster de suas esposas e não gerar filhos; quem fizer isso deve ser excluído do estado clerical». O cânon 27 insistia também na proibição de que habitassem com os bispos e outros eclesiásticos, outras mulheres não pertencentes à sua família. Só poderiam levar para junto de si, uma irmã ou uma filha consagrada virgem, mas de nenhum modo uma estranha.

Essa lei não era uma novidade na vida da Igreja, pois seria algo injusto e irracional. Uma lei desse tipo criada ex ninhil seria uma grave injustiça e criaria justificáveis reações. Mas as disposições daquele Concílio se referem a uma disciplina recebida de Cristo, dos Apóstolos, de seus sucessores e que era algo vivido pelos clérigos. De modo que essa lei era uma reação contra a infidelidade de alguns que naquela época desrespeitavam a prática tradicional. Por isso o Concílio pôde estabelecer uma grave e justa sanção a quem desobedecesse àquela lei: o afastamento do estado clerical. O Papa Pio XI, na sua Encíclica sobre o sacerdócio, afirmou que essa primeira lei escrita supunha uma práxis precedente, de origem apostólica.

Posteriormente encontramos duas cartas do Papa Sirício, que respondia a algumas questões apresentadas ao seu predecessor. Na carta Directa, do ano 385, o Papa disse que os sacerdotes e diáconos que, depois da Ordenação, geram filhos, atuam contrariamente a uma lei irrenunciável, que obriga aos clérigos maiores desde o início da Igreja. A apelação ao fato de que no Antigo Testamento, os sacerdotes e levitas podiam ter relações sexuais fora do tempo do seu serviço no Templo foi refutada pelo Novo Testamento, no qual os clérigos devem prestar culto sagrado todos os dias; por isso, a partir do dia da sua Ordenação, esses devem viver a continência absoluta. E noutra carta do ano em 386 lemos: «os sacerdotes e levitas não devem ter relações sexuais com suas esposas, porque devem estar ocupados diariamente com o seu ministério sacerdotal».

Depois temos a disposição do importante Concílio Africano do ano 390, que será posteriormente incluída no Código dos Cânones das Igrejas Africanas. Sob o título: «que a castidade dos sacerdotes e levitas deve ser protegida», o texto afirma: «O bispo Epigônio disse: “de acordo com aquilo que o anterior Concílio afirmou sobre a continência e sobre a castidade, os três graus que estão ligados pela Ordenação a uma determinada obrigação de castidade, ou seja, bispos, sacerdotes e diáconos – devem ser instruídos de uma forma mais completa sobre o seu cumprimento”. O bispo Genetlio continuou: “como já mencionado, convém que os sagrados bispos, os sacerdotes de Deus e os levitas, ou seja, aqueles que servem nos divinos sacramentos, sejam continentes por completo, para que possam obter sem dificuldades o que pedem ao Senhor; para que também protejamos o que os Apóstolos ensinaram e é conservado desde antigamente”. A isso os bispos responderam unanimemente: “estamos todos de acordo que bispos, sacerdotes e diáconos, guardiães da castidade, se abstenham também de suas esposas, a fim de que em tudo e por parte de todos os que sirvam ao altar seja conservada a castidade”».

Um dos principais motivos dados pela Igreja antiga do celibato é que esse torna eficazes as orações dos sacerdotes. Eles se baseiam no texto bíblico de São Paulo, o qual escrevia aos esposos cristãos: «Não vos recuseis um ao outro, a não ser de comum acordo, por algum tempo, para vos aplicardes à oração; e depois retornai novamente um para o outro, para que não vos tente Satanás por vossa incontinência» (cfr. 1 Cor, 7, 3-6.). São Paulo diz que os casados só podem abster-se das relações sexuais por certo tempo, para se dedicarem à oração e assim essas seriam escutadas. Os Padres da Igreja e os primeiros Papas argumentavam dizendo que os sacerdotes devem ser com mais motivos castos, para se dedicarem à oração em favor do povo de Deus. Desse modo, suas orações seriam mais eficazes; os padres que se esforçam por manter intacto o próprio celibato e procuram rezar com perseverança pelo povo de Deus podem comprovar a verdade desses ensinamentos diariamente.

Naquele mesmo texto, São Paulo recomendava a virgindade aos outros cristãos, sem dizer que o casamento é pecaminoso. «Pois quereria que todos fossem como eu; mas cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele. Aos solteiros e às viúvas, digo que lhes é bom se permanecerem assim, como eu.        Mas, se não podem guardar a continência, casem-se. É melhor casar do que abrasar-se» (I Cor. 7, 8-9). Não há dúvidas de que o celibato possui fundamentos bíblicos e a disciplina eclesiástica se baseia na vida mesma de Cristo e dos seus Apóstolos, dando origem assim ao que a tradição da Igreja chama de apostolica vivendi forma[iii].

3. A diversa disciplina nas Igrejas orientais.

É frequente a afirmação de que na Igreja oriental o celibato é opcional e os sacerdotes celebram validamente os Sacramentos, de modo que a disciplina celibatária da Igreja latina poderia ser mudada em qualquer momento. Mas qual é a razão da diversa disciplina oriental?

A Igreja Ortodoxa antiga era muito concentrada em questões teológicas, talvez mais do que no Ocidente; porém as questões disciplinares eram discutidas em cada região. De modo que na Igreja oriental não havia a mesma firmeza disciplinar que havia no Ocidente, devido a gradual separação disciplinar do Ocidente, a sua progressiva fragmentação e a influência imperial. Por isso, os costumes e as leis disciplinares foram progressivamente mudando naquela época.

Sendo assim, o Código Teodosiano (ano 434) dizia que a continência pode ser guardada, mas permitia à mulher morar com o marido, também depois da Ordenação; a legislação do Imperador Justiniano I em matéria eclesiástica, tanto no Código (ano 534) quanto nas Novellae(535-536) muda, em parte, a disciplina: mantém a proibição de se admitir na Ordem sagrada aquele que se tivesse sido casado mais de uma vez, assim como a de casar-se depois da Ordenação, e isto para todos os três graus da Ordem; porém, se permitia aos sacerdotes, diáconos e subdiáconos a coabitação com a esposa com o fim de que pudessem continuar usando do matrimônio, sempre que tivesse sido contraído uma só vez e com uma virgem.

Mas a mudança mais radical no Oriente, nessa matéria, ocorreu no Concílio Trullano II, convocado pelo imperador Justiniano II, no Outono de 690. Nele se tentou reunir toda a legislação disciplinar da Igreja bizantina e se buscou fazer necessárias atualizações. O resultado desse trabalho foi a promulgação de 102 cânones, que foram acrescentados mais tarde ao antigo Syntagma adauctum, transformando-se no último Código da Igreja Bizantina. O dito Concílio foi um evento particular da Igreja Bizantina, convocado e frequentado somente por seus bispos e mantido pela sua autoridade, que se apoiava de modo decisivo na autoridade do imperador. A Igreja Ocidental não enviou delegados e nunca reconheceu este Concílio como ecumênico, apesar das repetidas tentativas e pressões, especialmente por parte do imperador. O Papa da época era Sérgio (687-701), procedia da Síria e negou o reconhecimento daquele evento. Mais adiante, o Papa João VIII (872-882) só reconheceu as disposições que não eram contrárias à prática de Roma em vigor até aquele momento.

A disciplina sobre o celibato decidida então é válida ainda hoje nas Igrejas Orientais e diz que «todos os que depois do Batismo tenham contraído um segundo matrimônio ou tenha vivido em concubinato, bem como aqueles que se tinham casado com uma viúva, uma divorciada, uma prostituta, uma escrava ou uma atriz, não poderiam tornar-se nem bispos, nem sacerdotes, nem diáconos» (can. 3); «que aos sacerdotes e diáconos não estão autorizados a se casar após a Ordenação» (can. 6); «os bispos não podem, após a Ordenação, coabitar com sua esposa e, por conseguinte, não podem mais usar do matrimônio» (can. 12); «… os sacerdotes, diáconos e subdiáconos da Igreja oriental, em virtude de antigas prescrições apostólicas,podem conviver com suas esposas e usar dos direitos do casamento para a perfeição e ordem correta, exceto nos tempos em que prestam o serviço no altar e celebram os sagrados mistérios, devendo ser continentes durante este tempo» (can. 13).

As decisões aqui são bem interessantes ao nosso tema. Podemos ver que a Igreja oriental conserva para os bispos a mesma severa disciplina sobre a continência que se praticou sempre em toda a Igreja. Não há dúvidas de que essa lei pode ser considerada como um resíduo na legislação trullana da tradição antiga, apostólica.

Por outro lado, não se compreende naquelas disposições alguns pontos:

a) Porque só se admite um único Matrimônio para os padres casados; de fato, se esses ficam viúvos, não podem se casar com outra mulher; ora, se os outros padres podem se casar livremente, por que os viúvos não o podem? Quais seriam as justificativas teológicas dessa disposição?

b) A proibição das relações sexuais dos sacerdotes com suas esposas nos dias em que esses celebravam a Divina Liturgia (Missa), adotando assim uma concepção de sacerdócio semelhante a do A.T. No início, o culto litúrgico na Igreja oriental era feito somente nos domingos e em algum outro dia da semana. Com o passar do tempo o culto passou a ser diário e era de se esperar que a disciplina do celibato passasse a ser obrigatória sempre. Porém, ocorreu exatamente o contrário.

No Oriente algumas Igrejas particulares que estavam unidas à Bizantina se uniram posteriormente a Roma e lhes foi concedido poder continuar a sua tradição celibatária diferente. Certamente o retorno desses à comunhão com a Igreja latina foi uma grande alegria, porém, como disse o cardeal A. Stickler, o reconhecimento da diversidade de disciplina pode ser considerado como um nobre respeito, mas não como a aprovação oficial da mudança da disciplina apostólica da continência absoluta.

Atualmente sabe-se que nas Igrejas orientais (assim como nas provenientes da Reforma), onde não há mais a obrigação do celibato, há uma grande crise de vocações. E essa crise de vocações lhes afeta inclusive na hora de se designar um bispo para uma nova diocese, visto que os bispos devem ser celibatários e que os sacerdotes deles, na maioria dos casos, são casados [iv]. Na Igreja Católica isso não ocorre. Costuma-se dizer que a vocação ao episcopado é a única que não encontra crises na Igreja latina. Ao mesmo tempo, percebe-se nos últimos anos um aumento constante no número de Ordenações e de vocações sacerdotais, a nível global, apesar das dificuldades. No mundo, em 2009 eram 410.593 sacerdotes, enquanto que em 1999 eram 405.000[v]. No Brasil o número de padres passou de 16.772 no ano 2.000 para 22.119 em 2.010 [vi]. Nos Sínodos de Bispos em Roma, os bispos das Igrejas orientais sempre afirmam a beleza do dom do celibato, conservado na Igreja Católica e, ao mesmo tempo, falam da crise de vocações que essas Igrejas sofrem atualmente.

Outros dados interessantes: recentemente uma pesquisa de uma importante Revista, a Forbes, mostrou que o sacerdócio é a “profissão” na qual há uma maior taxa de felicidade entre os que o abraçam [vii]. Por outro lado, sabe-se que, infelizmente, nos nossos dias mais de 40% dos matrimônios se rompem, enquanto que por volta de 2% dos padres abandonam a vida sacerdotal [viii]. É evidente que a solução para a crise de vocações para o sacerdócio não é o matrimônio. Pois como bem notou o então cardeal J. Ratzinger o que se percebe hoje não é somente a incapacidade de se viver o celibato, mas sim a de se fazer qualquer tipo de escolha definitiva e de ser coerente com a mesma. Hoje pode parecer que é impossível a fidelidade no matrimônio, assim como ao celibato. E há quem proponha que o melhor modo para que haja mais sacerdotes fiéis ao seu ministério (algo que parece ser impossível) e dar-lhes o direito de viver algo que lhes parece ainda mais impossível: o matrimônio. Não há dúvidas, pois, de que se fossem permitidos na Igreja Católica padres casados, o próximo problema da Igreja seria o que fazer com os padres divorciados, problema bem presente nas comunidades protestantes tradicionais [ix].

Pode, pois, a disciplina da Igreja mudar? Por tudo o que vimos, podemos concluir que é bem mais possível que se mude a disciplina nas Igrejas orientais do que na Igreja Católica de rito latino, que mantém intacta a tradição recebida por Jesus Cristo e pelos Apóstolos. Mas talvez haja ainda quem insista e diga: «tudo bem, o celibato é bíblico e esteve sempre presente na vida da Igreja. Mas não devia ser esse opcional, tal como diz São Paulo?» A resposta que podemos dar a essa questão é uma só: o celibato na Igreja Católica sempre foi opcional! Hoje como no passado, ninguém pode ser obrigado a ser ordenado sacerdote, pois essa Ordenação seria inválida. Quem se sente chamado e se decide a responder positivamente a Cristo, aceita tudo o que essa decisão implica: inclusive o celibato. Ele é a pérola preciosa pela qual vale a pena trocar todas as demais. Além disso, para alguém ser ordenado sacerdote precisa ter ao menos 25 anos e ter passado no mínimo 5 anos de preparação num Seminário para discernir se Deus lhe chamou para essa missão em favor do povo de Deus. Um seminarista sabe, desde o primeiro dia seu no Seminário, que sua vocação implica a luta por viver o celibato, que é antes um dom de Deus. Quem escolhe de seguir a Cristo no sacerdócio, escolhe de lutar por viver como Ele viveu, dando sua vida pelos outros. Como bem disse o Beato João Paulo II na sua última carta aos sacerdotes, «as palavras da instituição da Eucaristia devem ser, para nós, não apenas uma fórmula de consagração, mas uma “fórmula de vida”» [x]. De modo que se Cristo foi o Esposo da Igreja (Ef. 5), se Ele deu a sua vida por Ela, por que não devem fazer o mesmo aqueles que se unem intimamente a Ele e agem in persona Christi?

 


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