4 - A GASTRIMAGIA E SUA PROLE (4º aula)

A primeira das doenças espirituais a ser abordada é a gula. Os gregos chamam-na γαστριμαργία (lê-se: gastrimargía), que quer dizer, etimologicamente, “loucura do estômago”.

Embora as pessoas tenham deixado de considerá-la pecado, trata-se de um mal muito importante contra o qual lutar. Não sem razão o Doutor Angélico dedica uma questão inteira de sua Suma Teológica (II-II, q. 148) para explicar em que ela consiste, quais as suas espécies (a. 4) e qual é, por assim dizer, a sua prole (a. 5).

Importa dizer, em primeiro lugar, que, de fato, a gula é um pecado (a. 1). Não é que sentir fome seja doença, nem que sentir prazer com a comida seja errado – se fosse, Deus não nos daria papilas gustativas. Assim, “não é gula todo e qualquer desejo de comer e beber, senão o desejo desordenado [sed inordinatum]”. Isso significa dizer que há uma ordem estabelecida por Deus para regular nosso relacionamento com os alimentos.

Na última aula, fizemos uma analogia, pela qual a alma era comparada a um cavaleiro, que deveria, de forma política [1], “domar” o seu cavalo, a saber, o composto corpo e alma. De fato, o composto de cada pessoa tem sua própria índole, que carrega consigo a carga genética de seus ascendentes, a educação que recebeu desde cedo, o ambiente em que cresceu etc. É um conjunto de fatores que faz que “o nosso cavalo” tenda (ou não) para a desordem da gastrimargia. Por isso, enquanto para algumas pessoas a gula é a maior das tentações, para outras, não é uma grande dificuldade.

A questão é que, como já foi dito, não é simplesmente no corpo que se alojam as desordens espirituais, mas no composto corpo e alma, principalmente no chamado apetite sensível. Aí, de modo mais específico na potência concupiscível – que diz respeito ao desejo das coisas mais fáceis de se obter –, está a doença da gastrimargia.

A gula é dividida por espécies, de acordo com o ensinamento de São Gregório Magno:

“O vício da gula nos tenta de cinco maneiras: às vezes, adiantamos a hora de comer, antecipando a necessidade; outras vezes, buscamos pratos mais refinados; outras vezes, desejamos alimentos preparados com mais esmero; outras ainda, exageramos na quantidade da comida; outras vezes, enfim, pecamos pela própria voracidade de um apetite sem limite.” [2]

Santo Tomás resume em um verso essas espécies: “Praepropere, laute, nimis, ardenter, studiose – Apressadamente, refinadamente, excessivamente, avidamente, meticulosamente” [3], e comenta:

“A gula implica um desordenado desejo para comer. Ora, no comer duas coisas devem ser consideradas: o alimento que se come e a ação de comer. Daí os dois modos de entender essa concupiscência desordenada. Primeiro, quanto ao alimento que comemos. Assim, quanto à substância ou a espécie de comida, há quem procure alimentos refinados, isto é, caros [laute]; quanto à qualidade, há quem busque alimentos acuradamente preparados, isto é, meticulosamente [studiose]; e quanto à quantidade, há os que exageram, comendo em excesso [nimis]. - Em segundo lugar, considera-se a desordem da concupiscência, quanto ao ato de comer, ou por antecipar o tempo próprio para isso, isto é, apressadamente [praepropere]; ou por não observar a maneira conveniente de comer, isto é, avidamente [ardenter].” [3]

Também São Gregório Magno ensina que da gula provêm cinco “filhas”: “De ventris ingluvie, inepta laetitia, scurrilitas, immunditia, multiloquium, hebetudo sensus circa intelligentiam propagantur. - Da gula surgem a alegria tola, a palhaçada, a imundície, a loquacidade e o embotamento mental.” [4] Comentando esse texto, escreve o Aquinate:

“A gula consiste, propriamente, no prazer imoderado no comer e no beber. Portanto, hão de ser considerados filhas dela os vícios resultantes desse prazer descontrolado. Ora, esses vícios podem ser entendidos na parte da alma e do corpo. Da alma, de quatro maneiras. Em primeiro lugar, quanto à razão, cuja acuidade se embota com os excessos da comida e da bebida. Nesse sentido, considera-se como filha da gula o embotamento intelectual, causado pelos vapores dos alimentos que perturbam a mente. A abstinência ao contrário, facilita a aquisição da sabedoria, conforme a Escritura: Deliberei em meu coração arrancar do vinho minha carne para votar o espírito à sabedoria. - Em segundo lugar, quanto ao apetite, que se desregula de muitos modos, pelos excessos no comer e no beber, porque a razão fica adormecida e travada. E, nesse sentido, fala-se de alegria tola, pois todas as outras paixões desordenadas conduzem, segundo Aristóteles, à alegria e à tristeza. E a isso se refere a Escritura, ao dizer: O vinho faz crer que tudo é segurança e alegria. - Em terceiro lugar, quanto ao destempero verbal. E aí entra a loquacidade, pois, como diz Gregório, ‘se os escravos da gula não fossem tão loquazes, o rico do Evangelho, que comia todos os dias esplendidamente, não teria que sofrer duramente na língua’. - Em quarto lugar, quanto ao ato desordenado, o que dá lugar à palhaçada, isto é, a uma jocosidade proveniente de uma fraqueza mental, que não domina nem as palavras nem os gestos exteriores. Por isso, a propósito da Carta aos Efésios: Nada de palavras grosseiras, estúpidas ou obscenas, a Glosa acrescenta: ‘Trata-se da palhaçada, ou seja, de uma jocosidade que provoca risadas’. - Vale notar que esses dois vícios, a loquacidade e a palhaçada, podem referir-se às palavras com as quais podemos pecar ou porque são supérfluas é o caso da primeira, ou porque são desonrosas, é o caso da segunda.

Da parte do corpo, afirma-se a imundície, tanto no sentido de emissão desordenada de qualquer coisa supérflua, como no sentido particular de emissão do sêmen. Por isso, temos a palavra da Carta aos Efésios: A devassidão, a impureza..., assim comentada pela Glosa: ‘trata-se da incontinência, ligada, de alguma maneira, ao desejo carnal’.” [5]

Os Santos Padres veem com muita clareza o parentesco entre a gula e a luxúria, que dizem respeito a dois centros da vitalidade humana: um, a alimentação, que sustenta a vida individual; outro, o sexo, que garante a preservação da espécie. Ambas as realidades estão enraizadas na potência concupiscível do apetite sensível.

Referências

  1. Cf. Suma Teológica, I, q. 81, a. 3, ad 2
  2. Moralia in Job, XXX, 60.
  3. Suma Teológica, II-II, q. 148, a. 4
  4. Moralia in Job, XXXI, 88 
  5. Suma Teológica, II-II, q. 148, a.                                                                                                                                                                        
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