2.FILÁUCIA

A filáucia, mãe de todos os vícios - 2°Aula

Na primeira aula, foi sondado o começo de nossa “historia calamitatum”. Pelo pecado de Adão e Eva, entrou uma desordem no mundo, desordem que se mostra por três raízes, a saber: a libido amandi, a libido possidendi e a libido dominandi. Essas três causas do pecado têm origem em uma só: o amor desordenado de si mesmo, que também se pode chamar de amor sui, em latim, e de filáucia. Esta expressão vem de duas palavras gregas – φιλία (lê-se: filía) e αυτός (lê-se: autós) – e designa o amor que o ser humano tem por si mesmo, amor que se encontra doente, por conta do pecado original.

Como referência para esta aula, é recomendada a leitura da obra Philautia. Dall’amore di sé alla carità, do Pe. Irénée Hausherr [1]. Para escrevê-la, ele se baseia especialmente em São Máximo, o Confessor, que é mestre sobre esse tema. Em suas “Centúrias Sobre a Caridade” [2], este autor cristão ensina:

“Toma cuidado com o amor-próprio, mãe de todos os vícios, mãe de todos os vícios, e que é o amor irracional do próprio corpo. Indubitavelmente, dele nascem os três primeiros pensamentos passionais fundamentais: o da gula, o da avareza, e o da vanglória, que tem origem nas exigências necessárias do corpo; por eles nasce toda a série de vícios. É preciso, portanto, como se disse, ter cuidado com este amor-próprio, e combatê-lo com muita sobriedade; destruído ele, são destruídos todos os pensamentos que dele provêm.” [3]

“O amor-próprio, como muitas vezes se disse, é causa de todos os pensamentos passionais. Dele se engendram os três pensamentos capitais da concupiscência: o da gula, o da avareza e o da vanglória. Do da gula nasce o da fornicação; do da avareza, o da avidez; do da vanglória, o da soberba. Todos os outros se seguem a cada um dos três: o da ira, o da maledicência e os mais. Estas paixões atam a mente às coisas materiais e a retêm na terra, como pedra pesadíssima em cima dela, sendo embora a mente, por natureza, mais leve e ágil que o fogo.” [4]

O amor filaucioso, por sua vez, nasce da realidade do pecado original. Antes da queda, os olhos do homem eram capazes de voltar-se às coisas criadas e transcender para Deus. As criaturas não passavam de ícones que remetiam ao Criador. Assim, se se olhasse no espelho, o homem na inocência primitiva amaria em si a “imagem e semelhança” divinas impressas nele [5]. Esse era o amor sui sadio, pelo qual Nosso Senhor dizia que o homem deveria amar ao próximo como a si mesmo [6].

Após o pecado original, no entanto, entrou uma desordem nesse amor-próprio. Notável é que também os filósofos pagãos a tenham notado. Aristóteles escreve que, já em seu tempo, “‘amante de si mesmo’ é uma expressão desonrosa”. E, ao exemplificar como o homem mau se ama desordenadamente, ele faz referência ao “gozo medíocre”, ao “dinheiro” e, depois, “às honras e aos cargos” [7] – curiosamente, as mesmas três libidines de que se falou na última aula. Impressiona como o homem iluminado pela razão consegue chegar às mesmas conclusões que chegam os autores espirituais e a Tradição da Igreja.

A partir da queda, então, as criaturas, que eram ícones que apontavam para o alto, ficam opacas e o seu uso se dirige à satisfação de si próprio. Esse sistema é completamente autodestrutivo. Um dependente químico, por exemplo, usa drogas porque quer ser feliz. Todas as pessoas veem, porém, que ele está destruindo a si mesmo, a sua família e aqueles que estão à sua volta. “O homem mau não deve ser um amante de si mesmo, visto que obedecerá às suas paixões vis e assim prejudicará tanto a si mesmo quanto aos seus semelhantes” [8], diz Aristóteles. São João Crisóstomo compara essa situação à loucura:

“Se, andando pela rua, encontrássemos uma pessoa mutilando a si mesma e arrancando pedaços do seu próprio corpo, não hesitaríamos em dizer que se trata de um louco, pois dilacerar os próprios membros ‘é próprio de furiosos e de loucos’. Tal é a nossa condição de pecadores. Achamo-nos muito inteligentes ao deixar Deus de lado e inventar uma forma nova de amor-próprio, mas acabamos por nos destruir.” [9]

Para curar essa doença, é necessário voltar à capacidade de transcender, olhando para as coisas criadas e dirigindo o nosso olhar ao Céu. A esse propósito, Santo Agostinho faz uma comparação fantástica:

“Deus não te proíbe de amar estas coisas [as criaturas], mas de amá-las com a finalidade de obter a felicidade. Não é proibido, porém, admirar e aceitar as criaturas para amar o Criador.”

“Irmãos, suponhamos que um esposo fizesse um anel para sua esposa e esta tivesse mais amor pelo anel recebido do que pelo esposo que lho fabricou; não é verdade que com aquele presente se revelaria que a esposa tem um coração adúltero, embora ela ame algo que é presente do esposo? É claro que ela ama algo que foi feito pelo seu esposo, mas se ela dissesse: ‘Basta-me o seu anel, e não me interessa ver o seu rosto’, que tipo de esposa seria esta? Quem não abominaria esta loucura? Quem não condenaria este sentimento de adúltera?”

“Amas o ouro no lugar do homem, amas o anel no lugar do esposo: se estes são os teus sentimentos a ponto de amar um anel no lugar do teu esposo e a teu esposo não queres nem mesmo ver; então quer dizer que ele te deu este penhor, não para te comprometer, mas para te perder. É para isto que um esposo oferece um penhor, para que no penhor ele mesmo seja amado. Para isto Deus te ofereceu as coisas [criadas]: ama aquele que as fez. Ele quer te oferecer muito mais, ou seja, quer dar a si mesmo. Mas se amares as coisas, mesmo que tenham sido feitas por ele, se esquecesses o Criador para amares o mundo, o teu amor não deveria ser julgado como amor adulterino?” [10]

Amar as coisas ao invés de Deus é destruidor porque significa cortar o próprio galho no qual se está sentado. Identifica-se, aqui, o conflito entre dois amores – o amor Dei e o amor sui. É a essa luta que se refere São João, quando diz que “tudo o que há no mundo (...) não vem do Pai, mas do mundo” e que “o mundo passa, e também a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” [11]. É também sobre o que Santo Agostinho fala em sua obra De Civitate Dei: “Dois amores fundaram, pois, duas cidades, a saber: o amor-próprio, levado ao desprezo a Deus, a terrena; o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial” [12].

O “desprezo de si próprio” significa a renúncia ao amor doente. A única forma de sair desse sistema de destruição no qual o homem foi colocado com o pecado original é renunciando a si mesmo. Foi o próprio Jesus quem disse: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, cada dia e siga-me” [13]. Infelizmente, muitas pessoas dentro da própria Igreja não entendem – ou mesmo subvertem – isso, procurando uma forma de serem cristãs sem abraçar a Cruz e renunciar à própria vontade. Mas, é novamente Nosso Senhor quem diz, “quem quiser salvar a sua vida a perderá; e quem perder a sua vida por causa de mim a encontrará” [14].

Assim, a única forma de viver o amor sui corretoé situá-lo dentro do amor Dei. O amor virtuoso, a caridade de que falam as Sagradas Escrituras, embora se possa dirigir a Deus, a si próprio e ao próximo, deve ter um único objeto formal, que é o próprio Deus. Isso significa amar o Criador e as criaturas somente por causa d’Ele. Só assim entraremos no caminho da cura, que pavimenta a cidade de Deus.

Referências

  1. Philautia. Dall’amore di sé ala carità | Amazon.it
  2. Centúrias sobre a Caridade e Outros Escritos Espirituais – Saraiva.com.br
  3. Centúrias sobre a Caridade, II, 59. São Paulo: Landy, 2003, p. 84
  4. Ibidem, III, 56. São Paulo: Landy, 2003, p. 103
  5. Gn 1, 26
  6. Cf. Mt 22, 39
  7. Ética a Nicômaco, IX, 8
  8. Ibidem
  9. Padre Paulo Ricardo. Um Olhar que Cura. São Paulo: Editora Canção Nova, 2008. p. 22
  10. In epistolam Iohannis ad Parthos tractatus decem, II, 11, in PL 35. Apud: Padre Paulo Ricardo. Um Olhar que Cura. São Paulo: Editora Canção Nova, 2008. p. 47-48
  11. 1 Jo 2, 16.17
  12. De Civitate Dei, XIV, 28
  13. Lc 9, 23
  14. Mt 16, 25

Clique na foto do Padre Paulo Ricardo e assista a 2° Aula na íntegra:

 

                          

 

 


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