6 - O PECADO DA LUXÚRIA  (6º aula)

O vício da luxúria, bem como o da gastrimargia, diz respeito aos pecados mais rudes, por assim dizer, pois estão ligados ao apetite concupiscível, cujo objeto "é o bem e o mal sensíveis, em si mesmos considerados" [1]. Tratam-se de realidades que afetam diretamente a conservação da vida humana. Como ensina Santo Agostinho, "o que é o alimento para a conservação do corpo é a relação sexual para a conservação da espécie" [2]. Assim, se um indivíduo para de comer, ele morre; e, se a humanidade para de se reproduzir, ela se extingue.

A luxúria, estritamente considerada, diz respeito a uma forma doente de viver a sexualidade. A princípio, a expressão – que remete a algo luxuoso ou excessivo – se referia a qualquer excesso, no comer e no beber também. Com o passar do tempo, porém, passou a aludir especificamente aos pecados sexuais. A palavra grega "πορνεία" (lê-se: pornéia) – também usada para se referir a esses pecados – significa, literalmente, prostituição. Sua raiz se encontra na ideia de "vender". É o que acontece quando os seres humanos se entregam aos vícios sexuais: ao invés de se relacionarem como pessoas, agem como sujeito e objeto, vendendo o próprio corpo como uma mercadoria. A palavra "fornicação" também carrega a ideia de prostituir-se. Fornix, em latim, significa, literalmente, "quarto da prostituta".

Importa dizer que o que está no centro da sexualidade é o amor, embora os homens pervertam o relacionamento tal como querido por Deus. De fato, quando Ele criou a mulher, tirou-a da costela de Adão [3]: não da cabeça, nem do pé, mas do lado, para mostrar a igual dignidade entre os sexos. Por isso, enquanto manifestação de amor, o sexo, vivido naturalmente, é feito a partir do encontro dos dois, face a face, como iguais.

Com o pecado, no entanto, o relacionamento entre homem e mulher tende à dominação, ao desequilíbrio: não são mais dois que se amam, mas um que passa a abusar do outro, como um senhor com seu escravo. É claro sinal de disfunção afetivo-sexual, por exemplo, quando alguém, para manter o próprio conforto e se ver senhora de sua vida, prefere ter um cachorro (ou quaisquer outras posses) a um filho ou a um companheiro. Lidando com coisas, que não possuem liberdade, ela pode ficar tranquila e estar no controle de suas situações.

Toda essa desordem também é visível em disfunções como o sexo anal e o sexo oral. Está bem claro, por exemplo, que o sexo anal é uma forma de relacionamento sadomasoquista, em que um senhor está a punir o seu escravo. Embora o sexo oral não seja tão clamoroso quanto, é bem nítida a desproporção entre um casal que faz sexo com um de joelhos na frente do outro, e outro que se relaciona frente a frente, rosto a rosto.

É interessante, porém, que – via de regra – os mesmos homens que aceitam ser senhores na vida sexual tornam-se escravos de suas companheiras na vida quotidiana; e as mesmas mulheres que aceitam ser usadas e escravizadas sexualmente tornam-se obsessivamente dominadoras no dia a dia. Opera-se uma cisão entre o sexo e a vida real, sem que muitas vezes as pessoas se deem conta. É assim porque a falta de equilíbrio no mundo sexual repercute em um desequilíbrio no âmbito da vida ordinária.

O que está por trás de tudo isso é o pecado da idolatria. Quando a serpente diz a Eva: "Sereis como deuses" [4], ela indica que ninguém vive sem um deus. Por isso, não existem ateus, no sentido próprio da palavra (ou seja, pessoas sem deus). Quem não serve ao Deus verdadeiro, serve a outras realidades, que se tornam, por isso, seu deus. Ao contrário, no âmbito familiar e sexual, quando se tem o Deus verdadeiro, todos os membros ocupam o seu devido lugar. O amor a Deus é uma realidade que, uma vez colocada no lugar, faz que todas as outras se ordenem.

O pecado, por sua vez, realmente escraviza o ser humano. O homem casto pode pecar a qualquer momento, mas o luxurioso não pode dizer que vai ser casto a qualquer momento. Quanto maior o hábito do vício, mais difícil é livrar-se dele. De fato, São João Clímaco, autor espiritual do século VI, diz que "todas as vezes que se verifica uma vitória sobre a natureza, é necessário reconhecer a presença daquele que está acima da natureza" [5]. Ou seja, sem a graça divina, ninguém pode ser casto.

Em uma pessoa virtuosamente ordenada, o normal seria que o Espírito Santo iluminasse a sua alma e esta, então, governasse o seu corpo – de forma política, e não despótica [6]. O luxurioso, no entanto, deixa o corpo subjugar a sua alma, e esta expulsa de si a graça de Deus. Quando se fala do "corpo", não se está a falar simplesmente da realidade física. Se fosse assim, também os animais poderiam pecar. E, no entanto, não existe o adultério dos cães, a fornicação das vacas ou a luxúria dos macacos: porque os animais não têm alma. Quando os bichos terminam uma relação sexual, eles estão plenamente satisfeitos. O ser humano, ao contrário – e porque tem alma –, é capaz de fazer sexo insaciável e obsessivamente, confundindo claramente prazer – que é do corpo – com felicidade – que é da alma.

A alma humana foi feita para o infinito. "Pecamos – ensina São João Paulo II – quando procuramos Deus onde ele não pode ser encontrado" [7]. Compulsivamente, então, "torturamos" o nosso corpo, chegando ao absurdo do "sexo sem prazer", fazendo-o mais por frustração que pelo prazer venéreo.

Para curar essa doença, é preciso saber que ela se encontra na alma. Pode acontecer, por exemplo, que o sexo de uma prostituta seja aparentemente idêntico à união entre um marido e a sua mulher em santo Matrimônio e, no entanto, o primeiro é pecaminoso e o segundo não. O vício se encontra na alma, na atitude espiritual com que as pessoas realizam o ato sexual. É nessa perspectiva que se deve estudar a cura da luxúria, na próxima aula.

Referências

  1. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 23, a. 1
  2. De Bono Coniugali, 16
  3. Cf. Gn 2, 22
  4. Gn 3, 5
  5. Escada do Céu, XV
  6. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, q. 81, a. 3, ad 2
  7. Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, 16 de maio de 1999, 2
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