ARTIGOS

16/07/2014 13:46

Beleza na liturgia facilita comunhão com Deus, diz especialista

O homem religioso está consciente da função da beleza na liturgia, seja para facilitar a comunhão com Deus, seja em sinal de respeito

Padre Anderson Marçal
Doutor em Teologia Pastoral Bíblico-Litúrgica

A Epifania de Cristo na Beleza da Liturgia

Padre Anderson Marçal

Padre Anderson Marçal

A liturgia é naturalmente bela, de origem divina. O que preocupa liturgos e liturgistas é a beleza dos sinais sensíveis nas suas diferentes formas, isto é, a beleza estética e a beleza da santidade. As duas formas contribuem para a beleza geral da liturgia.

A primeira forma, a beleza estética obedece às normas e aos padrões que permitem que as realidades sensíveis sejam bem apresentadas na liturgia e criam um ambiente agradável que permita uma boa participação dos fiéis.

A segunda forma, a beleza da santidade faz dos participantes da celebração sinais sensíveis agradáveis e admiráveis pelo seu testemunho de vida, servindo de modelo para outras pessoas. Se esta forma de beleza é importante para todos os participantes da celebração, ela é mais exigida do presidente da celebração que celebra in Persona Christi, isto é, no lugar de Cristo. Por isso, ele deve ser o reflexo do que representa. Falando da responsabilidade do Presidente da celebração, Aldazábal disse: “Ele é o Sinal de Cristo, o ‘sacramento’ que visibiliza o verdadeiro Sacerdote e Presidente de toda a assembleia cristã”.

Por isso, a responsabilidade do Presidente da celebração é muito grande. A coerência da sua conduta com os mistérios celebrados faz a sua beleza de santidade e, consequentemente, faz dele um sinal que agrada, que atrai; as pessoas vão acreditar mais porque o presidente vive o que celebra, dá testemunho de vida. É ao mesmo testemunho de vida que Paulo VI convida a Igreja na missão evangelizadora, no documento Evangelii Nuntiandi, número 76. Ele disse: “O mundo reclama e espera de nós simplicidade de vida, espírito de oração, caridade para com todos, especialmente para com os pequenos e os pobres, obediência e humildade, desapego de nós mesmos e renúncia”.

Na liturgia, a presença agradável da beleza nas duas formas facilita aos participantes da celebração a alcançarem o objetivo da liturgia. A preocupação pela beleza é também um sinal de respeito a Deus. Com efeito, o homem religioso tem consciência de que o culto não é qualquer ação, mas algo que envolve o homem e Deus, Ser Supremo, a quem se deve louvor, respeito.

Para mostrar o respeito, o homem vai procurar cuidar dos ritos, fazer belas as ações simbólicas, pelas quais Deus se manifesta e pelas quais ele também vai ao encontro do divino. Não é um critério suficiente para medir a fé, porém é um sinal exterior que pode mostrar fé em Deus e consideração pela liturgia. É no mesmo sentido que, justificando a necessidade da beleza,Aldazábal afirma: “Na se trata de fazer ostentação de riqueza, mas mostrar, pela própria maneira exterior de agir, o apreço em que é tido o que celebramos”.

De modo geral, o homem religioso está consciente da função da beleza na liturgia, seja para facilitar a comunhão com Deus, seja em sinal de respeito e, às vezes, até de forma muito humilde, ele tem sempre o desejo de fazer bem as ações cultuais, seja para uma verdadeira epifania (manifestação) de Cristo. Tendo presente a beleza na liturgia com as suas diferentes formas, como a epifania de Cristo é sentida na beleza da liturgia?

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Igreja dos Mártires frente às "Missas Inculturadas"

 

A Igreja dos Mártires desde os primeiros séculos seguiu o exemplo de seu Divino Fundador dando testemunho da Verdade. Por esta magnífica vocação todos os apóstolos, com exceção de São João, derramaram seu sangue e com eles muitos outros, ajudados pelo Espírito Santo, mantiveram-se perseverantes até serem entregues à morte por não negarem a sua fé. Segundo uma tão famosa e antiga citação "o sangue dos mártires é a semente da Igreja". De tal situação não podemos colher outro ensinamento se não o de que a Igreja está disposta a derramar seu sangue em vez de trair o seu Senhor. Nesta mesma igreja a terrível heresia do relativismo em que "todas as religiões são boas e podem levar ao céu" são tem espaço.

Entre os mártires, um dos mais célebres é São Paulo. De perseguidor passou à pregador, responsável pela evangelização de muitos povos, sendo boa parte do novo testamento cartas suas às mais diversas comunidades. Entre seus escritos, destaca-se um trecho da carta aos coríntios  cujo conteúdo  transcrevemos:

"Para os judeus fiz-me judeu, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, fiz-me como se eu estivesse debaixo da lei, embora o não esteja, a fim de ganhar aqueles que estão debaixo da lei. Para os que não têm lei, fiz-me como se eu não tivesse lei, ainda que eu não esteja isento da lei de Deus - porquanto estou sob a lei de Cristo -, a fim de ganhar os que não têm lei. Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos." 1Cor 9,20-22
Em uma primeira visão, poderíamos ver nesse trecho uma negação da pregação silenciosa dos mártires. Como pode alguém se fazer "tudo para todos" e ainda permanecer contrário ao relativismo? O próprio apóstolo responde a natureza do seu fazer tudo para todos explicitando sua finalidade "ganhar os que estão debaixo da lei", "ganhar os que não têm lei", em resumo, "salvar a todos". Fica assim claro que São Paulo não nega a sua fé, mas leva-a a todos superando tudo aquilo que não é inerente à sã doutrina e que poderia servir de obstáculo à sua propagação. Neste mesmo espírito missionários devemos enxergar a inculturação litúrgica. É função dela criar uma ponte que leve a todos, independentemente de sua cultura, à fé em Cristo, servindo de caminho do paganismo à Verdade.

Exemplos da correta aplicação da inculturação se encontram nos mais diversos países. Na Índia, os santos tem feições indianas, seus andores são enfeitados com uma quantidade imensa de cores, luzes e flores, próprios daquilo que lá é considerado solene. Na Índia, Cristo se faz indiano, para ganhar os indianos. Na China o menino Jesus veste amarelo/dourado, a cor reservada aos imperadores da China, uma forma única do anúncio do reinado de Cristo naquele país, além dos traços orientais e vestes típicas. Na China, Cristo se faz chinês para ganhar os chineses.


Nossa Senhora de Sheshan

Por vezes, essa inculturação demanda mudanças nas rubricas. Como no Japão em que se usa o amarelo em substituição ao branco para as ocasiões de júbilo e branco no lugar do preto para as exéquias, a fim de refletir melhor a cultura daquele povo. É necessário lembrar que, neste caso, não se trata de uma simples execução das rubricas de maneira adaptada aos costumes de um lugar, mas da alteração das mesmas. E como nos lembra a Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II:

22. § 1. Regular a sagrada Liturgia compete ùnicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, no Bispo.
§ 2. Em virtude do poder concedido pelo direito, pertence também às competentes assembleias episcopais territoriais de vário género legitimamente constituídas regular, dentro dos limites estabelecidos, a Liturgia.
§ 3. Por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica.
Ou seja, à exceção daqueles casos em que as rubricas indicam explicitamente que algum detalhe é de competência da conferência episcopal ou do ordinário, o poder para modificar o que está explicitado nos livros litúrgicos compete exclusivamente à Santa Sé.

Em nosso país, vemos o surgimento de muitos gêneros de celebração: missa afro, missa crioula, missa sertaneja. Tais celebrações pretendem ser "inculturadas", mas traem os princípios da inculturação. Em primeiro lugar, as modificações realizadas em tais missas são ilícitas, dado que carecem de qualquer autorização da Santa Sé. Em segundo lugar, essas celebrações não estão de acordo com a finalidade da inculturação que é levar Cristo a novas culturas.

Quando da colonização portuguesa, haviam comunidades que desconheciam o Evangelho e estavam imersas em culturas muito distintas daquelas dos missionários, assim necessitava-se de uma linguagem adequada à sua realidade a fim de que a fé fosse plenamente assimilada. A realidade brasileira atual é completamente diversa. Trata-se de uma sociedade com seis séculos de cristianismo, cujos costumes foram erigidos sobre uma base católica herdada de Portugal. Assim sendo, a inculturação que se pretende no Brasil é completamente infundada.

Vejamos com que detalhes se realizam de fato nessas celebrações, tomando como modelo a "missa sertaneja". O espaço litúrgico é invadido por uma profusão de instrumentos do campo: selas, balaios, cana-de-açúcar. O padre veste-se com paramentos xadrez, botinas e um chapéu. Toca-se viola e sanfona na missa. As fórmulas da missa se modificam, "Deus todo poderoso" se torna "O grande tropeiro" ou coisa do gênero. Faz-se até café em pleno presbitério.

Nos perguntamos: é uma celebração adaptada à cultura sertaneja? Não! O que se apresenta é uma  caricatura daquela cultura dentro de uma caricatura de Missa, que em nada encarna o modo de viver deste povo. Café e Missa? Não, aos domingos vai-se à missa em jejum, por isso mesmo muito cedo que é quando este povo está acostumado a começar o dia. A sanfona? Guardada desde o fim do baile. Na missa o toque dos sinos convoca a assembleia e, dentro da igreja, além dos sinos o suave toque do órgão. O padre antes da Santa Missa já está, de batina, rezando. Pede-se com muita piedade a bênção ao padre, ao vigário como é costume dizer. Os chapéus dos homens? Retirados na porta da igreja, onde também as mulheres se cobrem com o véu, então eles para um lado e elas para outro. E quando a missa começa, mais ainda do que antes, absoluto silêncio.

Veja que a cultura sertaneja por ser eminentemente católica tem como um ato de respeito manter os objetos profanos fora da igreja. Enquanto que nas "missas inculturadas" esquece-se totalmente da noção de sacralidade e se profana tudo que faz parte da celebração com objetos "temáticos". Também é muito ligada ao cumprimento de formalidades e o respeito às regras, por isso mesmo ser "sistemático" é uma qualidade muito comum aos sertanejos; impossível imaginar uma comunidade com esta maneira de ver o mundo mudando a Santa Missa segundo o que lhes parece adequado. Fica claro assim que a "missa sertaneja" não é nem um pouco sertaneja, mas é uma liturgia de laboratório, que alguém criou para satisfazer, na linguagem própria da roça, o seu "empenho": uma vontade descabida de realizar algo desnecessário.

Extrapolando o exemplo de volta aos diversos tipos de "missa inculturada", vemos que são todas celebrações artificiais que não correspondem à cultura nenhuma e, mais importante, não levam os fieis à procura de Cristo. Existe alguém que vá numa missa afro e que se vista daquela maneira ao sair dali? O resultado prático disso tudo é a criação de uma igreja com liturgia teatralizada, que mais serve como distração do que como esforço evangelizador. Essa igreja chega ao absurdo de, nessas celebrações, promover o sincretismo e igualar a fé cristã a outras religiões, apenas para promover um espetáculo agradável aos olhos. Essa igreja não está disposta a construir um caminho do paganismo de volta para a Verdade, mas liga a fé cristã às diversas culturas para levá-los de volta ao seu paganismo. Essa não é a igreja que se faz "tudo para todos, a fim de salvar a todos", esta não é a Igreja dos Mártires.
 
 
 
 
 
 
 
 

O idioma da liturgia romana

 

“A Língua Latina é a língua própria da Igreja Romana.”[i]

A língua oficial para a celebração da Santa Missa e de todos os atos litúrgicos, no rito romano, em ambas as formas, tradicional (tridentina, extraordinária, pré-conciliar, de São Pio V e do Beato João XXIII) e moderna (renovada, ordinária, pós-conciliar, de Paulo VI e de João Paulo II), é o latim. “O Latim exprime de maneira palmar e sensível a unidade e a universalidade da Igreja.”[ii] O Concílio Vaticano II, ao contrário do que muitos pensam, não aboliu o uso do idioma latino, antes o incentivou. “Salvo o direito particular, seja conservado o uso da Língua Latina nos Ritos latinos.”[iii]
Já antes do Concílio, o Beato João XXIII, que o convocou, ensinara:

“Que o antigo uso da Língua Latina seja mantido, e onde houver caído quase em abandono, seja absolutamente restabelecido. – Ninguém por afã de novidade escreva contra o uso da Língua Latina nos sagrados ritos da Liturgia.”[iv]

O latim permanece idioma oficial do culto no rito romano, mesmo após a reforma empreendida por Paulo VI e João Paulo II, por ocasião do Vaticano II. O rito romano moderno, sobre o qual tratamos nesta obra, é celebrado, pois, em latim, sua língua própria. Não houve uma proibição do latim, mas sim a permissão para que a Missa seja oferecida em vernáculo, i.e., nas línguas nacionais dos vários países. Pode-se, além disso, dizer determinadas partes da Missa em latim e outras em vernáculo.

Portanto, a regra é que a Missa e os demais atos litúrgicos (Ofício, sacramentos, sacramentais), no rito romano em sua forma ordinária, deva ser celebrada em latim, permitindo-se que seja oferecida em vernáculo.

Não é outra a claríssima disposição da lei litúrgica:

“A Missa se celebre quer em língua latina ou quer noutra língua, contanto que se usem textos litúrgicos que têm sido aprovados, de acordo com as normas do direito. Excetuadas as Celebrações da Missa que, de acordo com as horas e os momentos, a autoridade eclesiástica estabelece que se façam na língua do povo, sempre e em qualquer lugar é lícito aos sacerdotes celebrar o santo Sacrifício em latim.”[v]

Todo clérigo, se assim o desejar, pode celebrar em latim mesmo no rito moderno. Tem ele o direito de assim proceder. E, mais do que direito, é sumamente conveniente que os párocos e reitores de igreja, ao menos uma vez por semana, celebrem em latim para o povo, sem descuidar, outrossim, das majestosas Missas cantadas – recomendadas pelos livros litúrgicos, pelos Papas, e pelos autores mais respeitados em liturgia. Também o Bispo cuide não só de promover o latim, como celebre seguidamente quer totalmente no idioma latino, quer intercalando cerimônias nessa língua em suas celebrações vernáculas. Principalmente a Missa pontifical seja, eventualmente, em latim.

A Missa em latim segundo a forma antiga, pré-conciliar, hoje é chamada, a partir do Motu Proprio Summorum Pontificum, de uso extraordinário do rito romano. Como dissemos, entretanto, não só essa é em latim, mas também a forma nova, o uso ordinário, o rito romano moderno.

Ao lado de tantas Missas no rito antigo que são celebradas mundo afora, e começam a ser popularizadas no Brasil – sobretudo a partir do excelente trabalho da Administração Apostólica São João Maria Vianney e seu Bispo, Dom Fernando Arêas Rifan, e também do Instituto Bom Pastor –, necessariamente em latim, será muito oportuno que também as Missas no rito novo sejam oferecidas no idioma latino. Com isso não se quer impedir a Missa em vernáculo, mas promover o latim.

Uma boa medida é que as igrejas e oratórios com mais de uma Missa no Domingo reservem uma delas, ao menos, para a celebração em latim – no rito moderno mesmo. Se houver quatro Missas, que duas delas sejam em latim: uma rezada, outra cantada. Além disso, algumas Missas durante a semana podem ser em latim, e Missas em festividades especiais também – solenes e cantadas, de preferência. Eventualmente, se houver procura dos fiéis ou interesse dos párocos e reitores de igreja, ofereça-se, junto da Missa em latim no rito moderno, a Missa em latim no rito tradicional.

Motivos para a preservação da língua própria do rito romano não faltam. Todavia, expor todos eles escaparia à razão deste livro. Cito, então, apenas o lapidar Magistério de Pio XII: “O uso da Língua Latina é um claro e nobre indício de unidade e um eficaz antídoto contra todas as corruptelas da pura doutrina.”[vi]

Pode-se, então, celebrar o rito romano moderno, pós-conciliar, em vernáculo (em uma ou mesmo em várias línguas distintas na mesma Missa, como acontece nas celebrações internacionais, um trecho em cada idioma), ou em latim. Sempre.

[i] Sua Santidade, o Papa São Pio X, Encíclica Inter Pastoralis Officii
[ii] Sua Santidade, o Papa João Paulo I, Discurso ao Clero Romano
[iii] Concílio Ecumênico Vaticano II. Constituição Sacrosanctum Concilium, 36, § 1[iv] Sua Santidade, o Papa Beato João XXIII. Encíclica Veterum Sapientia
[v] Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum, 112
[vi] Sua Santidade, o Papa Pio XII. Encíclica Mediator Dei

 
 
 

O Domingo, fundamento do Ano Litúrgico

Uma síntese da Dies Domini

O Concílio Vaticano II (SC nº 6), fiel à tradição cristã e apostólica, afirma que o domingo, “Dia do Senhor”, é o fundamento do Ano Litúrgico, pois nele a Igreja celebra o mistério central de nossa fé, na páscoa semanal que, devido à tradição apostólica, se celebra a cada oitavo dia.

O domingo é justamente o primeiro dia da semana, dia da ressurreição do Senhor, que nos lembra o primeiro dia da criação, no qual Deus criou a luz (Cf. Gn 1,3-5). Aqui, o Cristo ressuscitado aparece então como a verdadeira luz, dos homens e das nações. Todo o Novo Testamento está impregnado dessa verdade substancial, quando enfatiza a ressurreição no primeiro dia da semana (Cf. Mt 28,1; Mc 16,2; Lc 24,1; Jo 20,1; como também At 20,7 e Ap 1,10).

Como o Tríduo Pascal da Morte e Ressurreição do Senhor derrama para todo o Ano Litúrgico a eficácia redentora de Cristo, assim também, igualmente, o domingo derrama para toda a semana a mesma vitalidade do Cristo Ressuscitado. O domingo é, na tradição da Igreja, na prática cristã e na liturgia, o “dia que o Senhor fez para nós” (Cf. Sl 117(118),24), dia, pois, da jubilosa alegria pascal.

 

Cap I – Dies Domini

  • A Celebração da obra do Criador

 

1-“tudo começou a existir por meio dele” (1Jo1,3)

Em Jesus Cristo vemos a participação ativa da obra da criação, pois, Ele é o fundamento e a primícia de nossa salvação. Ele inaugura a nova criação, esta que um dia fora corrompida com os nossos primeiros pais por meio do pecado.

2- “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn1,1)

Este versículo no faz perceber que Deus é o Criador, ou seja, criou os céus e a terra. E este ato criador de Deus é exemplo de trabalho para o homem. Deus deu ao homem o poder de governar o mundo na justiça e na santidade, fazendo assim, que o seu nome seja glorificado em toda a terra.

3- O “Shabbat”: o repouso jubiloso do Criador

A Sagrada Escritura nos relata que após ter terminada a obra da criação, Deus descansou no sétimo dia. Este descanso não representa o desinteresse e a passividade de Deus, mas, representa a sua complacência diante da criação, pois, Ele viu que a obra era “muito boa” (Gn1,31).

4- Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o” (Gn2,3)

O sétimo dia, chamado de “dia do Senhor”, fora abençoado e santificado porque este se trata de um dia separado dos demais. É o dia reservado para um diálogo mais intenso do homem com Deus. Neste diálogo de aliança e de amor, “o homem eleva a Deus o seu canto, tornando-se eco da inteira criação” (n.15).

5- “Recordar” para “santificar”

O recordar aqui implica um certo olhar para a obra de Deus que é a criação. Este ato deve animar toda a vida religiosa do homem ,pois, o repouso possui um significado sagrado. Assim, o crente é convocado a não simplesmente repousar como Deus repousou, mas, ele é chamado a repousar no próprio Deus.

6- Passagem do sábado para o domingo

Com o Evento pascal de Jesus Cristo, existe uma mudança no que diz respeito ao “dia do Senhor”, pois, antes de Cristo guardava-se o sábado, depois da Ressurreição passou-se a ter o domingo como dia por excelência e dia da revelação plena dos mistérios das origens. Parafraseando São Gregório Magno, o nosso Redentor é o verdadeiro sábado. “Do sábado passa-se ao primeiro dia depois do sábado, do sétimo dia passa-se ao primeiro dia: o Dies Domini torna-se o Dies Christi!” (n.18).

 

Cap II- Dies Christi

  • O dia do Senhor Ressuscitado e do dom do Espírito

1- A Páscoa semanal

A cada Domingo que celebramos vivenciamos o Evento da Ressurreição. Por isso, o Domingo possui para nós cristãos um grande  significado, ou seja, a passagem de morte para a vida e de trevas para a luz. Para isto, São Basílio fala do domingo como “santo domingo, honrado pela ressurreição do Senhor, primícia de todos os dias” (n.19). E Santo Agostinho refere-se ao domingo como “Sacramento da Páscoa” (n.19). O domingo possui este caráter te Páscoa semanal, pois, de domingo á domingo nos preparamos para o “Grande Domingo” que será a parusia.

2- O primeiro dia da semana

Este termo atribuído para expressar o “dia do Senhor” já aparece nos escritos paulinos, nas primeiras comunidades e no livro do Apocalipse: “o primeiro dia depois do sábado”, primeiro da semana, que começou a caracterizar o próprio ritmo da vida dos discípulos de Cristo (cf. 1Cor 16,2).  “Primeiro dia depois do sábado” era também aquele em que os fiéis de Trôade estavam reunidos “para partir o pão”, quando São Paulo lhes dirigiu o discurso de despedida e realizou um milagre para devolver a vida ao jovem Eutico (Cf.At 20,7-12). O Apocalipse nos diz que se tem o costume de dar a este primeiro dia da semana o nome de “dia do Senhor” (1,10).

3- Progressiva distinção do Sábado

Com o passar do tempo vai se distinguindo a diferença do sábado para o domingo. O sábado é o dia em que os judeus reúnem-se nas sinagogas para fazer as suas práticas religiosas. Os Apóstolos, de modo especial São Paulo, continuaram no início ainda a freqüentar as sinagogas, mas, pouco tempo depois começou a diferenciar os dois dias, sobretudo para esclarecer a diferença para aqueles cristãos que provinham do judaísmo. Desta forma, o sábado é guardado pelos judeus e o domingo “dia por excelência do Senhor” é venerado pelos cristãos.

4- O dia da nova criação

Existe uma profunda relação entre criação e ressurreição. Com a Ressurreição, Cristo nos dá a alegria de sermos noivas criaturas e com isso, ele restaura toda a obra da criação. Por isso, para nós o domingo é o dia em que nós devemos lembrar do nosso batismo, pois, o batismo nos faz homens novos em Cristo.

5- O Oitavo dia, imagem da eternidade

O domingo, além de ser o primeiro dia, é o “oitavo dia”, ou seja, ele não só dá início ao tempo, mas também do seu fim (escatologia). Assim, o domingo é o prenúncio daquilo que vai acontecer conosco. É o dia em que anima e estimula os cristãos como peregrinos neste mundo a caminharem rumo a pátria celeste.

6- O dia de Cristo-luz

Este termo foi como uma espécie de inculturação, pois, “o dia do sol”, possui uma conotação diferente para os romanos. Desta forma, a Igreja atribui como Jesus o verdadeiro “sol”.  São Justino, escrevendo aos pagãos diz que os cristãos faziam as suas reuniões “no dia chamado sol” e isto torna própria a admiração de Zacarias que atribui a Jesus como “o sol nascente que vem para iluminar os que jazem entre as trevas” (Lc1, 78-79).

7- O dia do dom do Espírito

Podemos também chamar o domingo como o dia do “fogo”, fazendo assim uma alusão ao Espírito Santo. É num domingo, após cinqüenta dia da Páscoa que vem sobre a terra e a Igreja o Espírito Santo de Deus. Assim, a “Páscoa da semana” torna-se “Pentecostes da semana”.

8- O dia da fé

O domingo é o dia da fé por excelência. Para isto, nós salientamos como um dia muito especial onde presentificamos a Páscoa do Senhor e por isso, é o dia em que professamos a fé e recordamos o nosso batismo.

9- Um dia irrenunciável

Mesmo com a dificuldades impostas pelo mundo moderno, o domingo deve ser guardado com respeito e com isto este deve ser de fato o “dia do Senhor” e não o “dia do homens”.

Cap III- Dies Ecclesiae

  • A Assembléia Eucarística, alma do domingo

1- A presença do Ressuscitado

O domingo é a celebração da presença viva do Ressuscitado entre nós. Para isto, é de suma importância que as pessoas se reúnam como comunidade, para exprimir em grandeza a identidade da Igreja, ou seja, de comunidade que é convocado pelo Senhor ressuscitado.

2- A assembléia eucarística

A dimensão eclesial está intrínseca ao sacramento da eucaristia, pois, realiza-se todas as vezes em que celebramos a Santa Missa, de modo especial quando a comunidade se reúne para celebrar o “dia do Senhor”, dia se vivência e memória da Páscoa.

2- A Eucaristia dominical

A Eucaristia dominical é marcada pela presença da comunidade que se une para celebrar o mistério da Ressurreição do Senhor e por isso, ela é chamada de a grande “epifania da Igreja”.

3- O dia da Igreja

O domingo sendo “dia do Senhor” é também o “dia da Igreja”, pois, a paróquia sendo uma comunidade eucarística, deve motivar para que os fiéis participem com afinco da celebração. Assim, fica mais evidente o caráter de unidade da assembléia dominical.

 

4- Povo Peregrino

Ao reunirmos para a celebração, a assembléia eucarística, realiza uma espécie de “exercício divino” na expectativa do “Esposo”, no qual saboreamos antecipadamente a alegria dos novos céus e uma nova terra, ou seja, a nova Jerusalém. Por isso, de “domingo a domingo”, a Igreja vai avançando para o último dia.

5- Dia da esperança

Se temos o domingo como dia de fé ele também pode ser definido como o dia da esperança, porque a participação da “ceia do Senhor” é a antecipação do banquete escatológico das “núpcias do Cordeiro” (Ap19,9).

6- A mesa da Palavra

Em toda a Celebração Eucarística, “o encontro com o Ressuscitado dá-se através da participação na dupla mesa da Palavra e do Pão da Vida” (n.39).  Para isto é necessário que a escuta da Palavra de Deus seja bem proclamada e preparada, para um maior conhecimento bíblico e espiritual dos fiéis.

7- A mesa do Corpo de Cristo

A Missa é a atualização viva do sacrifício do calvário. “ Debaixo do pão e do vinho, sobre as quais foi invocada a efusão do Espírito que opera com uma eficácia completamente singular nas palavras da consagração, Cristo oferece-se ao Pai com o mesmo gesto de imolação com que se ofereceu na cruz” (n.43).

8- Banquete pascal e encontro fraterno

O aspecto comunitário exprime-se de modo especial no caráter de banquete pascal, que é típico da Eucaristia, onde o próprio Cristo se faz alimento. A assembléia eucarística dominical é um acontecimento de fraternidade.

9- Da Missa à “missão”

Terminada a Celebração do Corpo e Sangue do Senhor, os fiéis voltam para o seu ambiente cotidiano com a tarefa de serem missionários, ou seja, de “anunciar a toda a criatura”. É-nos dito no final da Missa: “ite, missa est e nós respondemos Deo grátias”.

10- O preceito dominical

O Código de Direito Canônico, nos diz: ”no domingo e nos outros dias festivos de preceito, os fiéis têm obrigação de participar da Missa” (Cân. 1247). Esta obrigação é baseada numa necessidade interior que os cristãos dos primeiros séculos sentiam tão intensamente e que é válida para os nossos tempos.

11- Celebração Jubilosa e animada pelo canto

É de suma importância dar a devida atenção ao canto na assembléia, haja vista que eles servem para exprimir a alegria do coração e fazem ressaltar a solenidade.

12- Celebração cativante e participada

É necessário fazer o máximo de esforço para que a celebração seja cativante e celebrativa, fazendo que os presentes- jovens e adultos- se envolvam com a liturgia.

 

 

13- Outros momentos do domingo cristão

O domingo é o “dia do Senhor”, dia em que temos com a celebração da Eucaristia o cume do domingo, mas, este dia pode ser marcado com outros eventos que nos levem a santificação do mesmo. Desta forma, participando da Eucaristia levaremos para o nosso contexto social a alegria do Ressuscitado.

14- Assembléias dominicais, na ausência do sacerdote

As paróquias que não podem usufruir do ministério de um sacerdote que celebre a Eucaristia dominical, recomenda que esta celebre repartindo o pão da palavra e o da Eucaristia. Mas, não pode perder de vista que a Missa é a única verdadeira atualização da Páscoa do Senhor.

15- Transmissões radiofônicas e televisivas

Os fiéis que estão impedidos de participar da Missa Dominical por causa de doença ou outra razão grave, terão o cuidado de participarem de longe à celebração da mesma, por meio de rádio ou televisão. Assim, para estes cristãos, a Missa dominical produz abundantes frutos e eles podem viver o domingo como verdadeiro “dia do Senhor’ e “dia da Igreja”.

Cap IV- Dies Hominis

O Domingo: Dia de Alegria, repouso e solidariedade

1- A “alegria plena” de Cristo

Em virtude do significado do domingo “dia do Senhor”, no qual se celebra a obra divina da criação e da “nova criação”, é para nós um título especial de alegria. Nesta perspectiva de fé, o domingo cristão é verdadeiramente um “fazer festa”, um dia dado por Deus ao homem para o seu pleno crescimento humano e espiritual.

 

2- O cumprimento do sábado

Jesus Cristo em sua vinda deu um novo significado para o dia do sábado, pois, “o sábado não foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc 2,27). Com isso, Jesus se opõe a qualquer interpretação legalista do sábado, pois, o sentido autêntico do sábado bíblico, Jesus, “Senhor do sábado” (Mc2,28).

3- O dia do descanso

O dia do Senhor e o dia do descanso na sociedade civil tem uma importância e um significado que ultrapassam o horizonte propriamente cristão. O repouso é coisa “sagrada”, constituindo a condição necessária par o homem se subtrair ao ciclo, por vezes excessivamente absorvente, dos afazeres terrenos e retomar consciência de que tudo é obra de Deus.

4- Dia da solidariedade

A Eucaristia é acontecimento e projeto de fraternidade. A Missa Dominical nos impulsiona para a prática da caridade, ou seja, é preciso que o cristão mostre as suas atitudes concretas em favor do próximo.

Cap. V- Dies Dierum

*O Domingo: Festa primordial, Reveladora do sentido do tempo

1- Cristo, Alfa e Omega do tempo

Em Jesus Cristo, Verbo encarnado, o tempo torna-se uma dimensão de Deus, que em si mesmo é eterno. Na celebração da Vigília Pascal, a Igreja apresenta Cristo ressuscitado como “Princípio e Fim”, Alfa e Ômega”. Isto significa que Cristo é o Senhor do tempo; é o princípio e o cumprimento. Assim, a cada ano, a cada dia e a cada momento ficam abraçados pela sua Encarnação e Ressurreição, reencontrando-se assim na ‘plenitude do tempo’.

2- O domingo no ano litúrgico

O domingo é o modelo natural para se compreender e celebrar aquelas solenidades do ano litúrgico, cujo valor espiritual para a existência cristã é tão importante. O domingo ritma o compromisso eclesial e espiritual de cada cristão, fazendo com que este se aprofunde nos mistérios de Cristo.

 
 
 
 
 
 

O conceito de Missa nos catecismos da Igreja

Missa Solene 2

Nunca é demais recordar o que ensina a Igreja sobre a Missa. Abaixo, o conceito da Missa e desenvolvimento de algumas explicações sobre ela no Catecismo da Igreja Católica:

§1362 A Eucaristia é o memorial da Páscoa de Cristo, a atualização e a oferta sacramental de seu único sacrifício na liturgia da Igreja, que é o corpo dele. Em todas as orações eucarísticas encontramos, depois das palavras da instituição, uma oração chamada anamnese ou memorial.

§1363 No sentido da Sagrada Escritura, o memorial não é somente a lembrança dos acontecimentos dos acontecimento do passado, mas a proclamação das maravilhas que Deus realizou por todos os homens. A celebração litúrgica desses acontecimentos toma-os de certo modo presentes e atuais. É desta maneira que Israel entende sua libertação do Egito: toda vez que é celebrada a Páscoa, os acontecimentos do êxodo tomam-se presentes à memória dos crentes, para que estes conformem sua vida a eles.

§1364 O memorial recebe um sentido novo no Novo Testamento. Quando a Igreja celebra a Eucaristia, rememora a páscoa de Cristo, e esta se toma presente: o sacrifício que Cristo ofereceu uma vez por todas na cruz torna-se sempre atual: "Todas as vezes que se celebra no altar o sacrifício da cruz, pelo qual Cristo nessa páscoa foi imolado, efetua-se a obra de nossa redenção."

§1365 Por ser memorial da páscoa de Cristo, a Eucaristia é também um sacrifício. O caráter sacrifical da Eucaristia é manifestado nas próprias palavras da instituição: "Isto é o meu Corpo que será entregue por vós", e "Este cálice é a nova aliança em meu Sangue, que vai ser derramado por vós" (Lc 22,19-20). Na Eucaristia, Cristo dá este mesmo corpo que, entregou por nós na cruz, o próprio sangue que "derramou por muitos para remissão dos pecados" (Mt 26,28).

§1366 A Eucaristia é, portanto, um sacrifício porque representa (toma presente) o Sacrifício da Cruz, porque dele é memorial e porque aplica seus frutos:

[Cristo] nosso Deus e Senhor ofereceu-se a si mesmo a Deus Pai uma única vez, morrendo como intercessor sobre o altar da cruz, a fim de realizar por eles (os homens) uma redenção eterna. Todavia, como sua morte não devia pôr fim ao seu sacerdócio (Hb 7,24.27), na última ceia, "na noite em que foi entregue (1 Cor 11,13), quis deixar à Igreja, sua esposa muito amada, um sacrifício visível (como o reclama a natureza humana) em que seria representado (feito presente) o sacrifício cruento que ia realizar-se uma vez por todas uma única vez na cruz, sacrifício este cuja memória haveria de perpetuar-se até o fim dos séculos (l Cor 11,23) e cuja virtude salutar haveria de aplicar-se à remissão dos pecados que cometemos cada dia.

§1367 O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício: "É uma só e mesma vítima, é o mesmo que oferece agora pelo ministério dos sacerdotes, que se ofereceu a si mesmo então na cruz. Apenas a maneira de oferecer difere". "E porque neste divino sacrifício que se realiza na missa, este mesmo Cristo, que se ofereceu a si mesmo uma vez de maneira cruenta no altar da cruz, está contido e é imolado de maneira incruenta, este sacrifício é verdadeiramente propiciatório".

§1368 A Eucaristia é também o sacrifício da Igreja. A Igreja, que é o corpo de Cristo, participa da oferta de sua Cabeça. Com Cristo, ela mesma é oferecida inteira. Ela se une à sua intercessão junto ao Pai por todos os homens. Na Eucaristia, o sacrifício de Cristo se torna também o sacrifício dos membros de seu Corpo. A vida dos fiéis, seu louvor, seu sofrimento, sua oração, seu trabalho são unidos aos de Cristo e à sua oferenda total, e adquirem assim um valor novo. O sacrifício de Cristo, presente sobre o altar, dá a todas as gerações de cristãos a possibilidade de estarem unidos à sua oferta. Nas catacumbas, a Igreja é muitas vezes representada como uma mulher em oração, com os braços largamente abertos em atitude de orante. Como Cristo que estendeu os braços na cruz, ela se oferece e intercede por todos os homens, por meio dele, com ele e nele.

Novus Ordo32

Da mesma forma, o Catecismo Romano, mandado pelo Concílio Ecumênico de Trento ensina:

O que resta, agora, é encará-la como Sacrifício, para os pastores saberem quais são os pontos principais que, por decreto do Sagrado Concílio, devem ser explanados ao povo fiel, nos domingos e dias de festa.

I. VALOR E UTILIDADE DO SACRIFÍCIO DA MISSA

Este Sacramento não é apenas um tesouro de riquezas celestiais, que nos garante a graça e o amor de Deus, quando o usamos nas devidas disposições; mas tem ainda uma virtude particular, que nos põe em condições de agradecer a Deus os imensos benefícios que nos tem dispensado.

Um confronto nos fará compreender como deve ser agradável e bem aceita a Deus esta Vítima, uma vez que imolada segundo as prescrições da Lei. Dos sacrifícios da Antiga Aliança está escrito: “Não quisestes sacrifício, nem oferenda”(Sl XXXIX, 7). E noutro lugar: “Se quisésseis um sacrifício, Eu certamente o teria oferecido; mas Vós não Vos comprazeis com holocaustos”(Sl L, 18). No entanto, esses mesmos sacrifícios eram tão agradáveis ao Senhor, que, no dizer da Escritura, “Deus os sorvia como um suave odor” (Gn VIII, 21). Ora, que não devemos, pois, esperar deste outro Sacrifício? Nele é imolado e oferecido Aquele mesmo, de quem por duas vezes se ouviu falar a voz do Céu: “Este é o Meu Filho bem-amado, em quem pus as Minhas complacências” (Mt III, 17).

Força é que os párocos se detenham bastante na exposição deste Mistério, para que os fiéis, por ocasião do culto divino, aprendam a meditar, com atenção e piedade, o Sagrado Sacrifício a que assistem.

Antes do mais, os pastores ensinarão que Cristo instituiu a Eucaristia por duas razões. A primeira, para ser um alimento celestial de nossa alma, com que pudéssemos proteger e conservar em nós a vida espiritual.

A segunda razão era para que, na Igreja, houvesse um sacrifício perene, em reparação de nossos pecados, pelo qual o Pai do Céu, a quem tantas vezes ofendemos gravemente com nossos crimes, Se volvesse da cólera à misericórdia, e do justo rigor à clemência;

Como imagem e semelhança dessa finalidade, podemos considerar o Cordeiro Pascal, que os Filhos de Israel costumavam oferecer e comer, como Sacrifício e como Sacramento.

Na verdade, quando estava prestes a imolar-Se a Deus Pai no altar da Cruz, não podia Nosso Salvador dar prova mais cabal do Seu imenso amor para conosco, do que esta de deixar-nos um Sacrifício visível, em renovação daquele que pouco depois ia consumar-se na Cruz, de maneira cruenta, uma vez por todas, e cuja memória a Igreja havia de celebrar todos os dias, com o máximo proveito, em toda a redondeza da terra.

II. DIFERENÇA ENTRE SACRAMENTO E SACRIFÍCIO

Há, porém, uma grande diferença entre estas duas noções. O Sacramento é consumado pela Consagração. O Sacrifício tem toda a sua razão de ser no ato de ofertar. Por isso, quando conservada no cibório, ou levada a um enfermo, a Eucaristia tem caráter de Sacramento, que não de Sacrifício.

Enquanto é Sacramento, torna-se ela causa de mérito para quem recebe a Divina Hóstia, e confere-lhe todos os frutos espirituais, que acabamos de mencionar. Enquanto é Sacrifício, possui a virtude não só de merecer, como também de satisfazer. Assim como Cristo Nosso Senhor mereceu e satisfez por nós em Sua Paixão: da mesma forma, os que oferecem este Sacrifício, pelo qual se põem em comunhão conosco, merecem os frutos da Paixão de Nosso Senhor e prestam satisfação.

III. DOUTRINA DA IGREJA

A) Sacrifício instituído por Cristo

Acerca da instituição deste Sacrifício, o Santo Concílio de Trento não deixa lugar a nenhuma dúvida. Pois declarou ter sido instituído por Cristo Nosso Senhor na Última Ceia; fulminou, ao mesmo tempo, a pena de excomunhão contra quem afirmasse que não se oferece a Deus um verdadeiro Sacrifício, no rigor da palavra, ou que a oblação sacrifical não consiste em outra coisa senão em dar-Se Cristo a Si mesmo como comida.

B) Sacrifício oferecido só a Deus

O Concílio teve, porém, o cuidado de precisar que só a Deus se pode oferecer Sacrifício. Ainda que a Igreja costuma, às vezes, celebrar Missas em memória e honra dos Santos, contudo sempre ensinou que o Sacrifício é oferecido, não a eles, mas unicamente a Deus, que coroou os Santos de glória imortal.

Esta é a razão por que o sacerdote jamais dirá: “Ofereço-te este Sacrifício, ó Pedro, ou, ó Paulo”. Mas, oferecendo o Sacrifício só a Deus, rende-Lhe graças pela insigne vitória dos bem-aventurados Mártires, aos quais implora proteção, mas de tal maneira, “que nos céus se dignem interceder por nós aqueles cuja memória celebramos na terra” (Oração do Ofertório da Missa).

C) Provas dessa doutrina

Palavras de Cristo

O que a Igreja Católica ensina acerca deste Sacrifício, como dogma de fé, foi por ela tirado das palavras de Nosso Senhor, quando naquela última noite confiou aos Apóstolos os próprios Mistérios Sagrados, e lhes disse: “Fazei isto em Minha memória” (Lc XXII, 19; I Cor XI, 24).

Consoante a definição do Sagrado Concílio, foi nessa ocasião que Ele os instituiu sacerdotes, e lhes ordenou que eles mesmos e seus sucessores no ministério sacerdotal imolassem e oferecessem o Seu Corpo.

Uma prova bastante clara desse fato está nas palavras que o Apóstolo escreveu aos Coríntios: “Não podeis, diz ele, beber o Cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis tomar parte na Mesa do Senhor e na mesa dos demônios” (I Cor X, 20ss). Ora, se por “mesa dos demônios” devemos entender o altar em que lhes eram oferecidos sacrifícios, a “Mesa do Senhor” não pode significar outra coisa, senão o altar em que se sacrificava ao Senhor. Só nesse sentido é que as palavras do Apóstolo têm sua força de argumentação.

Figuras e oráculos do Antigo Testamento

Se buscarmos figuras e oráculos deste Sacrifício, no Antigo Testamento, encontraremos em primeiro lugar o que dele vaticinou Malaquias, com perfeita clareza: “Desde o nascer do sol até o ocaso, grande é o Meu Nome entre as nações; e, em todo lugar, é sacrificada e oferecida ao Meu Nome uma oblação pura, porque o Meu Nome é grande entre as nações, diz o Senhor dos exércitos” (Ml I, 11).

Ademais, antes e depois da promulgação da Lei, foi este Sacramento prefigurado por várias espécies de sacrifícios; pois todos os bens da salvação, significados por aqueles sacrifícios, estão contidos neste único Sacrifício, que constitui, por assim dizer, o remate e a consumação de todos os outros.

Entre eles, porém, não se pode considerar uma figura mais expressiva, do que o sacrifício de Melquisedec. O próprio Salvador, na Última Ceia, ofereceu a Deus Pai Seu Corpo e Sangue, sob as espécies de pão e de vinho, e assim Se declarava constituído Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedec.

IV. UNIDADE ENTRE SACRIFÍCIO DA CRUZ E DO ALTAR

Dizemos, portanto, que o Sacrifício que se oferece na Missa, e o sacrifício oferecido na Cruz são, e devem ser considerados como um único e mesmo Sacrifício. Da mesma forma, a Vítima é uma e a mesma, Cristo Senhor Nosso, que uma vez só Se imolou de modo cruento no altar da Cruz.

As vítimas, cruenta e incruenta, não são tampouco duas vítimas, mas constituem uma única, cuja imolação se renova todos os dias na Eucaristia, desde que o Senhor assim determinou: “Fazei isto em Minha memória!”

Mas o Sacerdote também é o mesmo, Cristo Nosso Senhor. Pois os ministros que oferecem o Sacrifício, não fazem prevalecer a sua própria, mas a Pessoa de Cristo, quando consagram Seu Corpo e Sangue. É o que mostram as próprias palavras da Consagração. Não diz o sacerdote: “Isto é o Corpo de Cristo”, mas diz: “Isto é o meu Corpo”. Representando, assim, a Pessoa de Cristo Nosso Senhor, converte a substância do pão e do vinho na verdadeira substância de Seu Corpo e Sangue.

Nestes termos, é preciso ensinar, sem nenhuma hesitação, um ponto que também já foi exposto pelo Sagrado Sínodo. O Sacrossanto Sacrifício da Missa não é apenas um Sacrifício de louvor e ação de graças, ou uma simples comemoração do Sacrifício consumado na Cruz, mas é também um verdadeiro Sacrifício de propiciação, pelo qual Deus se torna brando e favorável a nosso respeito.

Por conseguinte, se imolarmos e oferecermos esta Vítima Sacratíssima, com pureza de coração, fé ardente, e profunda compunção de nossos pecados, podemos estar certos de que havemos de conseguir “do Senhor misericórdia e graça em tempo oportuno” (Hb IV, 16).

Pois é tão agradável ao Senhor o perfume desta Vítima, que [por ela] nos dá os dons da graça e da penitência, e desta maneira nos perdoa os pecados. Este é o sentido daquela súplica oficial da Igreja: “Quantas vezes se celebra a memória deste Sacrifício, tantas vezes entra em ação a obra de nossa Redenção” (“Secreta” do IX Domingo depois de Pentecostes). Noutros termos, este Sacrifício incruento derrama, então, sobre nós os ubérrimos frutos do Sacrifício cruento.

Depois, ensinarão os párocos ser tal a virtude deste Sacrifício, que não só aproveita a quem oferece e a quem comunga, mas também a todos os fiéis cristãos, quer vivam ainda conosco aqui na terra, quer já tenham morrido no Senhor, sem estarem de todo purificados. A estes últimos não é aplicado com menos fruto do que se aplica aos vivos, por seus pecados, penas, satisfações, por qualquer desgraça e aflição. Assim o ensina, com absoluta certeza, a Tradição Apostólica.

Por aqui vemos, sem mais dificuldade, que todas as Missas são comunitárias, porquanto dizem respeito ao bem e à salvação comum de todos os homens.

V. CERIMÔNIAS DA MISSA

Em torno deste Sacrifício se fazem muitas cerimônias, sobremaneira solenes e grandiosas. Nenhuma delas deve ser considerada inútil ou inexpressiva. Pelo contrário, todas elas têm por fim realçar a majestade de tão sublime imolação, e mover os fiéis, que contemplam os ritos salutares, a considerarem as realidades divinas que se ocultam nesse mesmo Sacrifício.

No entanto, não é mister tratarmos mais de perto este assunto: já por que sua explicação exorbita de nosso programa; já porque os sacerdotes podem ter à mão esses quase inumeráveis opúsculos e comentários, que sobre a matéria escreveram homens de notável piedade e erudição.

Com isso julgamos ter dito, com a ajuda de Nosso Senhor, o necessário sobre os pontos principais, que se referem à Eucaristia, como Sacramento e como Sacrifício.

 


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