Um clero santo para que Cristo reine sobre a Terra

04/08/2014 17:33

Um clero santo para que Cristo reine sobre a Terra

O ministério sacerdotal existe para realizar a mediação entre o Céu e a Terra

 

 

 

 

 

 

 

 

São João Maria Vianney, cuja memória litúrgica celebra-se neste dia 4 de agosto, costumava se referir ao sacerdócio como “o amor do coração de Jesus”. Dizia o santo pároco: “um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina” [1]. Com essas palavras, o Cura d’Ars exprimia aos seus fiéis a importância da existência de sacerdotes para o mundo.

O ministério sacerdotal existe para realizar a mediação entre o Céu e a Terra. Trata-se de uma necessidade sobrenatural, dada a fragilidade do gênero humano, causada pelo pecado. A culpa original fez com que os homens se voltassem contra Deus, por medo de sua presença [2]. Ele, por sua vez, não os abandonou à própria sorte; ao contrário, alentou-os a esperar a salvação eterna, estabeleceu com eles uma aliança e escolheu homens dentre o povo de Israel para oferecer “dons e sacrifícios” pelos pecados. Esse modelo de sacerdócio ministerial duraria até à vinda do Sumo Pontífice, na Nova Aliança, que seria capaz de oferecer o seu sacrifício uma vez por todas, a saber: Jesus Cristo. A superioridade desse Sumo Sacerdote é manifestada nas palavras de São Paulo aos hebreus [3]:

“Tal é, com efeito, o pontífice que nos convinha: santo, inocente, imaculado (...) que não tem necessidade, como os outros sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro pelos pecados próprios, depois pelos do povo; pois isto o fez de uma só vez para sempre, oferecendo-se a si mesmo”

Na noite de sua paixão, Jesus instituiu a um só tempo os sacramentos da ordem e da Eucaristia; fez a oferta definitiva para a remissão dos pecados da humanidade. Daí procede a relação intrínseca entre sacerdócio e Santa Missa. O sacerdote da Nova Aliança é também vítima e altar. Ele não só oferece o sacrifício como também se entrega em holocausto pela salvação do rebanho. Assim, diferentemente do que ocorria na Antiga Aliança – na qual o sacerdote deveria oferecer sacrifícios todos os dias, “primeiro pelos pecados próprios, depois pelos do povo” –, Ele se oferece a si mesmo, como vítima de expiação, no altar da cruz. E somente um sacerdote “santo e imaculado”, como descrevem as Sagradas Escrituras, pode fazer isso uma vez por todas.

Com efeito, o sacramento da ordem, que nasce diretamente da vontade de Cristo – “fazei isto em memória de mim” [4] – perpetua a ação salvífica de Jesus na história. Todo padre é um Outro Cristo. Na administração dos sacramentos, não é a pessoa do padre quem realiza a ação, mas é o próprio Jesus a operar o milagre da transubstanciação – em que o pão e o vinho se convertem em Corpo e Sangue – a perdoar os pecados, a conceder o viático aos enfermos etc. A Igreja ensina que o bispo ou o presbítero preside na pessoa de Cristo Cabeça ( in persona Christi capitis).

Isso explica o porquê de o sacerdócio sempre ter ocupado um lugar privilegiado no imaginário popular. O padre – seja pelas suas vestes, seja pela sua piedade – transmite ao mundo a misericórdia de Deus pelos seus filhos, sobretudo quando procura configurar-se cada dia mais à pessoa de seu Senhor. Dá testemunho disso uma centena de santos sacerdotes, que, ao longo de seu ministério, reconduziram muitos transviados de volta à religião cristã, por meio de suas práticas devocionais e atividades caritativas: São João Bosco, no apostolado com os jovens; Santo Afonso Maria de Ligório, na prática das virtudes morais e evangélicas; São Josemaria Escrivá, na santificação do trabalho; São Pio X, na condução da Igreja à Eucaristia. Desse último, aliás, colhemos estas pias palavras, que dizem muito sobre a importância do ministério sacerdotal: “para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis” [5].

Exige-se do sacerdote, portanto, uma maior dedicação à sua vocação, ainda mais nestes tempos em que a figura sacerdotal encontra-se tão atacada, seja por uma opinião pública tendenciosa e anticlerical, seja pelos próprios pecados de alguns padres. Se na ação litúrgica, a presença de Cristo é garantida ao sacerdote, de tal forma que mesmo o seu pecado não pode impedir os frutos da graça, “há muitos outros atos em que a conduta humana do ministro deixa traços que nem sempre são sinal de fidelidade ao Evangelho e que podem, por conseguinte, prejudicar a fecundidade apostólica da Igreja” [6]. Neste sentido, faz-se imperioso o apelo de Pio XII [7]:

O caráter sacramental da ordem chancela da parte de Deus num pacto eterno o seu amor de predileção, que exige em troca, da criatura escolhida, a santificação... O clérigo deve ser tido como um eleito entre o povo, cumulado dos dons sobrenaturais e participante do poder divino, numa palavra, um 'outro Cristo'... Já não pertence a si, nem aos parentes e amigos, nem mesmo à sua pátria. Deve consumi-lo um amor universal. Mais ainda, a caridade universal será o seu respiro, os seus pensamentos, a vontade, os sentimentos deixam de ser seus, para serem de Cristo, que é a sua vida.

Da santidade dos padres, depende a salvação das almas. Da santidade dos padres, depende o anúncio da misericórdia cristã. É neste sentido que o Cura d’Ars alertava: “deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas” [8]. Este século é a maior prova disso.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Bento XVI, Carta para a proclamação de um ano sacerdotal por ocasião do 150º aniversário do Dies Natalis do Santo Cura d’Ars (16 de junho de 2009).
  2. Gn 3, 8.
  3. Hb 7, 26.
  4. Lc 22, 19.
  5. Carta La ristorazione: Acta Pii X, I, p. 257
  6. Catecismo da Igreja Católica, n. 1550
  7. AAS 50 (1958), pp. 966-967; L'Osservatore Romano, 17 outubro 1958.
  8. Bento XVI, Carta para a proclamação de um ano sacerdotal por ocasião do 150º aniversário do Dies Natalis do Santo Cura d’Ars (16 de junho de 2009).

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