Um organismo decapitado

08/07/2014 09:13

Um organismo decapitado

Além de tentar arrancar do coração humano as virtudes sobrenaturais infundidas por Deus em sua alma, o trabalho do diabo tem ido além.

Ainda destrinchando as palavras do Papa Pio XII sobre a lenta e gradual destruição da humanidade, é preciso que nos atentemos às seguintes palavras: “Nestes últimos séculos [o “inimigo”] tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo misterioso de Cristo” [1].

A que Pio XII queria se referir, nesse discurso, ao falar do “organismo misterioso de Cristo”? Esse Pontífice, que escreveu a bela encíclica Mystici Corporis, “sobre o Corpo Místico de Jesus Cristo e nossa união nele com Cristo” [2], podia muito bem estar falando da Igreja, que é “muito mais excelente que quaisquer outras sociedades humanas” [3]. Mas, dado o contexto – a desestruturação presente em todo o mundo –, também é provável que tenha querido falar da sociedade humana como um todo.

Mas, por que chamar a sociedade de “organismo misterioso de Cristo”? Porque, como atesta Santo Tomás de Aquino, verdadeiramente, Cristo é cabeça de todos os homens:

“Cristo é a cabeça de todos os homens, mas em graus diversos. Assim, primária e principalmente, é a cabeça daqueles que atualmente lhe estão unidos pela glória. Em segundo lugar, dos que lhe estão unidos pela caridade. Em terceiro, dos que lhe estão unidos pela fé. Em quarto, dos que lhe estão unidos só em potência sem ainda terem sido reduzidos ao ato, mas que a este devem ser reduzidos, segundo a divina predestinação. O quinto, enfim, os que lhe estão unidos em potência e nunca serão reduzidos a ato, como os homens que vivem neste mundo e que não são predestinados. Mas que, partindo deste mundo, deixam totalmente de ser membros de Cristo, por já não poderem ser unidos a Cristo.” [4]

Ao assumir a natureza humana, Jesus procurou salvar todos os homens. “Como não há, não houve, nem haverá homem algum cuja natureza não foi assumida por Cristo Jesus, nosso Senhor, assim não há homem algum, não houve, nem haverá pelo qual ele não tenha sofrido”, diz uma declaração magisterial do século IX. Mas, como “o cálice da salvação humana”, “se não for bebido, não salva” [5], o sacrifício de Cristo, embora útil a todos, pode ser ineficaz, não por defeito do resgate operado por Nosso Senhor, mas por ingratidão dos homens. Por isso, o demônio se esforça por transformar aqueles que receberam, pelos méritos de Cristo, a herança eterna, em rebeldes e moradores do inferno.

Em nossos tempos, porém, além de tentar o homem com a falta de fé, com o desespero e com o ódio, tentando arrancar de seu coração as virtudes sobrenaturais infundidas por Deus em sua alma, o trabalho do diabo tem ido além. A própria seiva natural tem sido impiedosamente sugada de suas veias e passam a ser aceitos comportamentos que, em si mesmos, não só entram em choque com preceitos religiosos, mas com a própria realidade das coisas.

Como não deplorar, por exemplo, que o aborto e a eutanásia sejam amplamente aceitos por legislações civis mundo afora? Como não enxergar na promoção de um “estilo de vida homossexual” uma profunda disfunção cultural, que coloca o prazer acima da própria preservação da espécie? Como não se espantar com o agigantamento descontrolado do “Estado-babá”, que não só distribui vales e bolsas aos seus cidadãos – que bem podem ser chamados de súditos –, mas chega a arrogar para si o direito de educar as crianças e os jovens?

O “inimigo”, indica o Santo Padre, é “astuto”. Obscurecendo a compreensão da lei natural, torna praticamente impossível a obra de evangelização entre os homens. Afinal, como se pode ensinar que Deus é um pai amoroso, que “de tal modo amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” [6], se se aceita que uma mãe que mata seu filho permaneça impune ou, pior, receba toda a assistência do Estado para assassiná-lo? Ou se se entrega aos políticos a responsabilidade de criar as crianças, eliminando lenta e gradualmente as figuras paternas e maternas de seus imaginários? Como se podem ensinar as verdades eternas, cujo fio condutor é a Palavra (o λόγος) que “se fez carne” [7], a uma sociedade que sequer entende a finalidade primária do ato conjugal?

Por esses e outros fatos, é preciso concordar com o Papa: está-se diante de uma verdadeira “desagregação intelectual, moral, social, da unidade do organismo misterioso de Cristo” – que chega a parecer “decapitado”. A solução é recuperar como guia e senhor Aquele que é “a cabeça de todos os homens” e procurar, com a oração e com a pregação do Evangelho, integrar todos no Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja.

Por Christo Nihil Praeponere


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